‘Meu marido não é herói’: romance de pessoas deficientes ainda é tabu

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“A pessoa com deficiência sequer é vista como pessoa. É como se a pessoa não pudesse ser bonita, desejável. A gente precisa desmistificar e tirar esse rótulo. Cada pessoa tem sua história. É muito comum se espantarem em ver um casal onde uma das pessoas não tem deficiência. Por que se espantar? Por que o amor não é visto?”, questiona Michele, que ficou paraplégica após um acidente de carro em 2006.

Espanto é a reação que a atriz Tabata Contri vivencia quase todos os dias ao lado do marido. Aos 39 anos, Tabata é casada, mãe de um filho de três e cadeirante desde os 19. Tabata trabalha com inclusão para pessoas com deficiência no mercado de trabalho, viaja por todo o Brasil prestando consultoria de diversidade em empresas, mas tem de lidar com olhares de estranhamento alheios por levar uma vida semelhante a de seus amigos e familiares.

“Fico irritada quando parabenizam meu marido por estar comigo. As pessoas ainda têm uma percepção muito capacitista, de subestimar ou superestimar. Quando alguém me acha uma super heroína é porque a pessoa não esperava nada de mim. Não sou super, nem coitada.”

Quando alguém me acha uma super heroína é porque a pessoa não esperava nada de mim. Não sou super, nem coitada.”

Tabata Contri

“Converso com pessoas que a família não permite que saiam de casa, que tenham uma vida, que namorem. As relações fazem parte do crescimento pessoal de qualquer um. Se já existe uma limitação física, sensorial ou intelectual, não podemos colocar mais limites.”

Para Jéssica Nogueira, de 28 anos, que tem atrofia muscular degenerativa, a reação de espanto de quando aparece em algum espaço com um parceiro ao lado denuncia um raciocínio superficial. “É como se a pessoa que tem deficiência não tivesse vida própria. Até mesmo quando começo um relacionamento os meninos ficam pasmos porque acreditam que são as primeiras pessoas do mundo a entrarem na nossa vida. Alguns deles nos veem com uma aparência frágil e têm medo de nos machucar.”

É por isso que Michele Simões, do documentário Amor Fati, bate na tecla da necessidade de espaços acessíveis e representação na mídia.

“A gente perpetura o pensamento de que pessoas com deficiência não saem de casa, isso porque temos uma falta de acessibilidade grande que, justamente, dificulta a saída delas. Mais do que isso, construímos nossa personalidade com base em um padrão de imitação.”

Foi pensando em representatividade que a jornalista e fotógrafa de 26 anos Maria Paula Vieira aceitou participar do clipe da música O Bebê, dos funkeiros Mc Kekel e Kevinho, que mostra o cantor em um romance com uma mulher com deficiência.

Kevinho empurra Paula Vieira na cadeira de rodas em cena do clipe "O Bebê"

Kevinho empurra Paula Vieira na cadeira de rodas em cena do clipe “O Bebê”

Reprodução

“Já existiam papéis de pessoas personagens com deficiência na mídia, mas com atores que não têm deficiência, o que tira a questão da representatividade. Então foi muito importante para mostrar que as pessoas com deficiência namoram, passeiam com seus namorados e têm uma vida normal”, conta Maria, que tem uma doença genética rara não diagnosticada que causou uma atrofia de pés e mãos e a impede de andar.

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