EDUARDO MAHON – Bolsonaro nazista?

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Não podemos negociar um palmo de liberdade por nenhum outro tipo de valor

Estava conversando com minha família no café da manhã sobre as declarações do Secretário Nacional de Cultura, Roberto Alvum. Pouquíssimas pessoas no Brasil chegam a se incomodar. Primeiro, porque não sabem quem foi Goebbels e não sabem o que foi o nazismo. Segundo, porque jamais fariam a relação entre um e outro discurso, mesmo que as expressões tenham sido copiadas. Terceiro, porque raciocinam em termos pragmáticos: se a economia está melhorando, tudo o mais vai melhorar. Quarto, porque imaginam que a cultura não é essencial, sobretudo por nunca terem direito de usufruir verdadeiramente dos aparelhos culturais públicos e privados.

Na Alemanha, deu-se exatamente o mesmo. Uma economia arrasada que foi recuperada em pouco tempo. Tudo o mais era apenas um detalhe. Não sabiam que Hitler era um canalha? Claro que sabiam. Mas a classe médica foi, aos poucos, negociando a questão dos costumes e das liberdades civis com o sucesso econômico (bancado pelo Estado). São pequenas concessões, uma a uma, que vão construindo um monstro. O nazismo foi o ápice de uma política eugênica que já vinha fermentando na Europa há mais de 100 anos. Os cidadãos pouco se importavam com as sandices que Hitler escrevia em Minha Luta e tampouco com seus discursos descontrolados.

O ideário de Bolsonaro é conservador. Nada demais ser conservador. […] Esse não é o problema. Ocorre que a ótica tradicionalista de Bolsonaro – como não se sustenta teoricamente por meio de uma equipe bem preparada – pretende catequizar. Eis aí a tragédia.

Qual o conjunto discursivo do nazismo? A evocação de mitos fundadores, o ideário de progresso contínuo, o desenvolvimento de políticas coletivistas, o horror à expressão individualista, a ideia de uma nação forte e expansiva, a crença na organização apolítica dos militares, a higiene racial e a promoção de uma “cultura sadia”. Como se vê, o Secretário Nacional de Cultura usou exatamente as mesmas expressões que Goebbels, Ministro da Propaganda de Hitler, escreveu para que o Führer discursasse. Essa valorização de valores se dá com base num tripé fé-trabalho-família. Aparentemente, não há nada demais. A maioria do povo é religiosa, quer trabalhar e se organiza em famílias. Contudo, a exclusão de todos os outros abre o flanco para o totalitarismo.

Espanta que o Secretário Nacional de Cultura não seja sumariamente demitido. Nem mesmo Bolsonaro alcança o ideário de J. Goebbels. Ele é muito obtuso para isso. Trata-se de um militar de segunda categoria, um oficial menor que apanhou a patente em uma sentença. Elegeu-se com a plataforma armamentista consecutivas vezes e era um dos deputados mais “exóticos” como Clodovil, Feliciano, Jandira e o restante do circo de horrores que acontece na Câmara dos Deputados. Elegeu-se pelo voto contra a quadrilha que espoliava o país. Qual era a plataforma? Nem ele sabia. Tinha ideia de que era preciso cumprir as promessas básicas e libertar a economia de muitas amarras que, de fato, ainda tem. Mais nada.

O ideário de Bolsonaro é conservador. Nada demais ser conservador. Grandes líderes eram assumidamente conservadores. São raros os líderes progressistas que não sofreram forte questionamento público. Esse não é o problema. Ocorre que a ótica tradicionalista de Bolsonaro – como não se sustenta teoricamente por meio de uma equipe bem preparada – pretende catequizar. Eis aí a tragédia. O Estado vai financiar (já está financiando) um conjunto de medidas que imponham um ponto de vista, desmontando o aporte humanista conquistado pelo país pós-ditadura. Chamando de “libertinagem”, exatamente como Hitler já o fez, querem censurar e sufocar as manifestações diversas. Corta-se financiamento direto e proíbe-se aliados de apoiar, demite-se quem pensa diferente. A receita para o totalitarismo é relativamente óbvia.

Nada vale o nazismo. Nem o emprego. Nem o salário. Não podemos deixar de criticar. Em nenhuma hipótese. Não podemos negociar um palmo de liberdade por nenhum outro tipo de valor. Liberdades civis são inegociáveis. Independentemente do quê esteja em jogo, do quê esteja aparentemente sendo trocado. Essa é uma mensagem clara que, como intelectuais, devemos lançar à sociedade. Não abrimos mão da nossa liberdade. É preciso desligar esse cafajeste da Secretaria Nacional de Cultura e manter a estreita vigilância sobre o germe nazista que está crescendo na sociedade brasileira. Chega a ser irônico. No nazismo, os primeiros que seriam exterminados são os que mais aplaudem.

EDUARDO MAHON é escritor e advogado.

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