O Fusca nosso de cada dia

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CULTURA

1959 – JK desfila no Fusca Made in Brazil
–  Ele ofusca a gente. Reclama um dos jovens na mesa da cervejada depois da pelada domingueira num ensolarado domingo no final dos anos 1960.
–  Ofusca muito. Concorda outro peladeiro com um copo firme na mão.
Quem ofuscava?
–  Claro que era o dono do Volkswagen, aquele carrinho miudinho que dividia a população em dois blocos: quem tinha um e aqueles que sonhavam com o danadinho.
Memória – PM restaura Fusca 1973
Essa é a versão que ouvi sobre a origem do apelido Fusca, dado ao automóvel mais famoso e amado no mundo, o Volkswagen sedã que a sabedoria popular chama carinhosamente de Fuscão, Fuca, FuquinhaFusquinha, mas, sobretudo de Fusca, a apelido derivado do poderio do garotão que tinha um, e que ofuscava os demais jovens daquele grupo peladeiro da grande cidade mineira dividida quase ao meio pelas águas vermelhas do rio Doce, aos pés do bico do Ibituruna, onde o trem a Vale apita e o Nordeste descia em paus-de-arara pra tentar a sorte em São Paulo ou no Rio, oxente!.
Itamar ao volante de um Fusca

Alemão, coisa nenhuma. Inventado na Alemanha com seu motor refrigerado a ar, pra suportar o calorão do deserto transportando soldados do poderoso exército nazista no Norte de África. O Fusca nasceu germânico em 15 de agosto de 1940, da prancheta do projetista Ferdinand Porsche, por ordem do ditador nazista Adolf Hitler, que lhe encomendou um carro pra transportar três soldados e uma metralhadora.

Mas, verdadeiramente brasileiro desde 3 de janeiro de 1959, quando pela primeira vez saiu da linha de montagem e ofereceu um passeio ao presidente Juscelino Kubitschek, numa versáo conversível especialmente criada para aquele evento. Tão brasileiro que homenageou os seios da diva paraense da voz rouca, sedutora e o sorriso sem igual, com o Fuscão Fafá de Belém. Tão político que ressuscitou pra agradar o presidente Itamar Franco, o pai do Plano Real, que deu identidade monetária ao país. Tupiniquim com tanto status que foi o grande prêmio escolhido pelo prefeito paulistano Paulo Maluf, pra presentear os craques Canarinhos que faturaram o tricampeonato no México em 1970. Tão íntimo dos brasileiros que vai (continua indo) além do carro em si: virou filme e músicas; é paixão.
1985 – No Ciclo do Ouro em Peixoto de Azevedo o Fusca estava presente

Em todos os sentidos Mato Grosso deve muito ao Fusca.

Foi o grande carro na interiorização nos anos 1970 e na década seguinte, quando rodovia pavimentada era luxo em parte da malha rodoviária federal.
Trabalhou duro na abertura de cidades e no Ciclo do Ouro no Nortão.
Viatura militar e policial, ambulância, veículo oficial e carro preferido pelos colonizadores, o Fusca foi onipresente àquela época.
Até meados dos anos 2000 jornais  usavam o carrinho para o deslocamento de suas equipes.
1995 – Fusca é carro de reportagem do Diário de Cuiabá

Injustas, as forças políticas e economicas mato-grossenses não o reverenciam nessa terra onde há município chamado Comodoro e vila com nome de Del Rey, em Carlinda.

Miudinho, mas com bom espaço interno: dois lugares na frente e três no banco traseiro, que cá prá nós, não era aconselhável aos grandalhões. O Fusca tem motorização variada: 1000cc, 1200, 1300 (o mais famoso), 1500 e 1600cc. Seu motor na traseira, protegido pela lataria, é refrigerado a ar. A distribuição, simples. O consumo, baixo. A velocidade pra os mais ousados poderia chegar a 150 km/h em condições expecionais. Na poeira a vedação funcionava bem e dispensava o guarda-pó. À noite, sem farol de milha ou auxiliar, não é recomendável viajar no Fusca. Nos atoleiros e areões, valente. Na buraqueira pula, mas os amortecedores resspondem bem. Não é impossível manusear o câmbio  de quatro marchas, quando o cabo da embreagem quebra: o carrinho aceita bem passar marcha no tempo.  Assistência mecânica era a coisa mais fácil possível (hoje, nem tanto pela sotistificação das oficinas). Todo mecânico conhecia as manhas e os principais defeitos: era um cabo de vela bambo, falta de lixa no platinado, carburador entupido, a bobina desgastada…

Em 1994 à espera do dono

Sempre ao lado do motorista e dos passageiros? Não. O Fusca os abandonava quando chovia: seu limpador de pára-brisas estava pra visibilidade tal qual o chinês pro samba. Ninguém é perfeito, nem o carrinho.

Carrinho valente

Por onde se olhasse nas pequenas e grandes cidades o Fusca estava presente. Nas estradas, então nem se fala. O viajante que fazia os pedidos do comércio em Mato Grosso viajava em Fusca; o médico que chegava à pequena cidade pra atendimento, também. o táxi que nos levava da rodoviária pra casa, idem; a RP da PM que fazia ronda, então nem se discute; o padre que percorria as paróquias carregava orguhoso a chave do seu; o primeiro beijo de muitas senhoras grisalhas, avós e bisavós, foi no banco de um Fusca, o carrinho que entrou na vida de gerações de brasileiros mato-grossenses e dos demais estados.

Metido, o Fusca tinha versão emplumada, mas havia também o Pé de Boi, que conseguia a proeza de deixar sem acessórios o carrinho que já não os tinha.

Kuramoti, campeão de vendas em Mato Grosso

Mato Grosso sempre foi praça boa pra venda do Fusca. Em 1973, o comerciante paulista de origem japonesa Sango Kuramoti instalou a Concessionária Volkswagen Trescinco, que durante a fabricação do Fusca foi uma das campeãs nacional de venda do modelo; Sango ganhou fortuna e se tornou líder empresarial. Em Rondonópolis, o empresário português Joaquim Alves de Lima montou uma concessionária, que era a segunda no Estado em volume de desova do carrinho.

De 1959 a 1986 o Fusca reinou, mas a Volkswagen o tirou da linha de montagem pra fortalecer o mercado do Gol, seu carro popular que brigava no mercado com o Corcel, Chevette e outros menos cotados. Itamar Franco mexeu com os pauzinhos logo após assumir a Presidência em 29 de dezembro de 1992, e no ano seguinte o velho e bom Fusca voltou aos braços, digo, às mãos dos motoristas, saindo zerinho da fábrica.

O retorno teve curta duração: em 1996, o carrinho saiu definitivamente a linha de produção.

MÉXICO – A Volkswagen passou a produzir um suposto Fusca estilizado, em Puebla, no México, e até o exportou para o Brasil, mas sem sucesso – não era a mesma coisa. Em 3 de janeiro deste 2020 a fabricação mexicana também encerrou seu ciclo.

Xuxa sensualizando no Fuscão Preto

MAGIA – Além do carinho dos brasileiros e de outros povos, a fábrica do Fusca soube promovê-lo bem. Em 1968, nos Estados Unidos o diretor cinematográfico Robert Stevenson lançou o filme Herbie: The Love Bug, que foi nacionalizado com uma dose de paixão virando  Se meu Fusca falasse. Depois o longa ganhou uma série na TV americana.

No Brasil, inspirado na música Fuscão Preto (em vídeo nesta página), de Atílio Versutti & Mariel, o produtor Jeremias Moreira Filho dirigiu o longa  de igual nome, que tinha no elenco ninguém menos do que Xuxa, o símbolo sexual da época.

No asfalto e atoleiros havia sempre carregamentos de Fusca pelos caminhos

Redação Boamidia

FOTOS:

1 – Museu JK – Brasília

2 – Divulgação PMMT

3 – Agência Planalto

4 – Vargas de Losor

5 – Lorival Fernandes – Diário de Cuiabá

6 e 9 – Divulgação

7 – Arquivo internet

8 – Arquivo Diário de Cuiabá

10 -Revista Cegonha

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