VULTOS MATO-GROSSENSES – Maurício Tonhá

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PERSONAGENS

Da Boa Terra pra Água Boa

Brasília, 1977. Da janela do ônibus da Auto Viação Brandão, Maurício Cardoso Tonhá avista a Capital da Esperança idealizada por Juscelino Kubitschek. Cada vez mais a cidade mostra a leveza arquitetônica de Lúcio Costa e a poesia do cimento de Niemeyer. A viagem iniciada em Santana, na Boa Terra, termina. Com uma bolsa numa mão e o tíquete da bagagem na outra, desembarca. Da plataforma vê o tio materno José Honório Alves Cardoso.

Antes do primeiro passo o sobrinho ganha um forte abraço de José Honório. “Com sua bênção, tio Zé Rabinho” diz. “Deus te abençoe, menino”, responde o parente apertando ainda mais os braços. Zé Rabinho é o apelido de José Honório.

Em Brasília o tio e sua mulher, dona Jandira receberam o sobrinho em casa. O casal lhe dá teto e afeto. A meta de Maurício Tonhá era cursar o segundo grau, se formar engenheiro civil ou ser aprovado em concurso do Banco do Brasil e se transferir pra Santana, sua terra.

A permanência em Brasília foi curta: menos de cinco anos. Nesse período, com os braços no trabalho e a mente nos livros, se formou técnico contábil.

No dia a dia Maurício Tonhá trabalhava com o tio, que era vendedor de sacolas plásticas e outros produtos para embalagens. Zé Rabinho não era dono do negócio. Ele revendia embalagens. Certo dia, o sobrinho lhe sugere que passe a comprar os produtos e a vendê-los. “Não tenho carro!”, observa. “Então adquira uma Kombi financiada e deixa comigo que a gente vai ganhar dinheiro”, retruca.

Uma reluzente Kombi azul passou a ocupar a garagem da casa de Zé Rabinho e dona Jandira. Todos os dias, bem cedo, a perua saía pelas ruas rumo às feiras. No banco dianteiro do passageiro o lugar cativo era de Maurício Tonhá, que por ser menor não dirigia.

Com os produtos nas costas e o bloco de pedidos no bolso da calça jeans surrada, Maurício Tonhá percorria as barracas. “Tempos duros aqueles, mas de muito aprendizado com meu tio e com a vida”, avalia.

Dois caminhos se abriam à frente de Maurício Tonhá: apostar no negócio das embalagens com o tio ou se preparar ao vestibular pra engenharia civil, porque não havia indício de que haveria concurso ao BB.

Em 1982 a Caixa Econômica Federal e o BB abriram inscrição para o Norte e Centro-Oeste. Maurício Tonhá voltou ao sonho de ser bancário. Enquanto imaginava como se inscreveria, reencontrou-se em Brasília com o primo e engenheiro civil Altair Antônio Alves, o Abobrinha, diretor do agora extinto Departamento de Estradas e Rodagem de Mato Grosso (Dermat) e morador em Barra do Garças.

Abobrinha o estimulou a ir a Barra se inscrever aos concursos. Pouco tempo depois Maurício Tonhá embarcou num ônibus pra tentar a sorte e se surpreendeu com Mato Grosso, a terra, onde seu tio materno Antônio Joaquim Alves, o Antônio Abóbora, ganhou destaque enquanto presidente da Câmara e prefeito constitucional de Rondonópolis, onde também presidiu o Sindicato Rural.

Na Barra, Maurício Tonhá se inscreveu nos concursos da Caixa e do BB. Foi aprovado em ambos. A espera pelos chamados foi curta. Em julho de 1982 a Caixa o lotou na agência daquela cidade.

Mauricio Tonhá permaneceu quatro meses na Barra morando na casa de Abobrinha e seu colega José Ângelo Carloto – o Dr. Carloto. Em novembro de 1982 ele deixa a Caixa para ser lotado na agência do BB de Água Boa, inaugurada em agosto daquele ano e que tinha seu quadro formado por adidos cedidos por outras agências.

Água Boa, 14 de novembro de 2009

Quinta-feira, 25 de novembro de 1982. Chove forte na região do Araguaia e Maurício Tonhá chega a Água Boa. “Dizem que mudança com chuva dá sorte; tomara!”, pensa com seus botões.

No princípio, em Água Boa, Maurício Tonhá mora numa república na casa de Silvino Guerreiro do Amaral, com os colegas Olívio Pereira – agora seu compadre -, Getúlio Siqueira, Gilvan Rosa e Édson Ribeiro.

Antes de começar o primeiro dia de trabalho, percorre algumas ruas pra conhecer um pouco sua nova cidade. Numa praça ao ar livre vê feirantes com suas barracas e a população comprando. Presta atenção e imagina como seria bem mais humano se aqueles trabalhadores e seus clientes tivessem um espaço coberto, com iluminação, sanitários e bancas organizadas. O pensamento vaga por seu antigo trabalho em Brasília, ganha asas e ele imagina: “se um dia for prefeito de Água Boa, construirei uma feira”.

Em 14 de novembro de 2009 o prefeito de Água Boa, Maurício Tonhá, recebe o governador Blairo Maggi, o vice-governador Silval Barbosa e o secretário de Desenvolvimento Rural e Agricultura Familiar, Neldo Egon Weirich, para inaugurar a Feira Livre do Pequeno Produtor.

Os participantes notam o semblante emocionado de Maurício Tonhá, mas ninguém entende o porquê. Ele, no entanto, sabia muito bem o motivo. Naquele instante não era somente o prefeito que ali estava, mas também o jovem vendedor de embalagens nas feiras em Brasília e que um dia, recém-chegado à cidade, sonhou realizar aquela obra.

PS– Capítulo dedicado a Maurício Tonhá no livro Dois dedos de prosa em silêncio – pra rir, refletir e arguir, publicado em 2015 pelo jornalista Eduardo Gomes de Andrade sem apoio das leis de incentivos culturais

 

Nasce a Estância Bahia Leilões

 

Inflação e desconfiança generalizada na política econômica nacional. Assim era o Brasil no começo de 1991. Nos bancos e no comércio circulava o Cruzeiro, criado em 16 de março de 1990 pelo presidente Fernando Collor, em substituição ao Cruzado Novo. Planos econômicos fracassavam. A moeda também não resistia. A incerteza quanto ao hoje desmotivava o sonho com o amanhã. Aquele cenário não recomendava a abertura de empresa e ainda mais por alguém que não entendia do ramo e sem capital de giro. Mesmo assim, em Água Boa, o jovem ex-bancário Maurício Tonhá desafiou a lógica e fundou a Estância Bahia Leilões.

A criação da Estância Bahia foi pura ousadia de Maurício Tonhá, que mesmo sem entender do ramo leiloeiro conhecia bem a pecuária, tinha bom trânsito naquele segmento, gozava do respeito dos pecuaristas do Vale do Araguaia e via a atividade enquanto promissora. A ideia de criar uma leiloeira povoou sua mente por algum tempo, antes de tomar tal decisão.

Em novembro de 1982 Maurício Tonhá chegou a Água Boa para trabalhar na agência do Banco do Brasil e foi lotado enquanto fiscal da Carteira Agrícola, com 500 clientes proprietários inclusive em São José do Xingu, Porto Alegre do Norte, Confresa, Vila Rica e Santa Terezinha.

Dinâmico, comunicativo, bem relacionado socialmente, casado e com veia política, não resistiu ao convite do Partido da Frente Liberal (PFL) e se lançou candidato a vereador. A resposta do povo não poderia ser melhor: recebeu a maior votação ao cargo e, de quebra, foi eleito presidente da Câmara Municipal.

Com o mandato passou a dividir o tempo entre o trabalho no banco e a vida pública.

Depois de amadurecer bem a ideia sobre a leiloeira, que foi exaustivamente discutida com sua mulher, Jane Cristina e o cunhado César Friedrichs, Maurício Tonhá decidiu deixar o emprego de bancário.

“Ele só pode ser louco. Onde já se viu deixar um emprego seguro pela incerteza de um negócio?” – Seus amigos e conhecidos em Água Boa reagiam com essa e outras frases parecidas ao seu plano de trocar o banco pelo próprio negócio.

Maurício Tonhá não desistiu da ideia e a levou adiante. Queria montar sua leiloeira, mas até chegar a esse objetivo trabalhou em outra área: comprava arroz em Água Boa e o transportava para a Bahia, de onde retornava com mulas e burros, que vendia aos fazendeiros para a lida com o gado.

Entre uma e outra sessão da Câmara e no vaivém sem fim à Bahia, costurava os planos para entrar no ramo leiloeiro.  que botou em pista.

O sucesso do primeiro evento, o apoio recebido da classe pecuarista e da população água-boense deram ainda mais ânimo a Maurício Tonhá, o fundador da caçula e menor das 24 leiloeiras que existiam no Vale do Araguaia. O resultado foi surpreendente, afinal a Estância Bahia não tinha sede e utilizou 20 currais de arame liso da União Democrática Ruralista (UDR) construídos numa propriedade de Eduardo Bonini, em Água Boa. Mais que um bom negócio, aquele leilão pioneiro foi a aula inaugural da nova profissão abraçada pelo ex-bancário e futuro empresário.

Na Bahia se costuma dizer que “Não há Senhor do Bom Princípio; só Senhor do Bonfim”. Com a leiloeira que leva o nome da Boa Terra o começo também foi difícil e ela caminhou lentamente nos dois primeiros anos de sua existência. Em 1993, com a economia nacional ainda insegura e pouco depois de entrar em circulação o Cruzeiro Real, aconteceu um fato marcante na trajetória de Maurício Tonhá e sua empresa que dava os primeiros passos.

Naquele ano, um indivíduo que comprava gado no Vale do Araguaia e o mandava para Araçatuba, no interior paulista, deu calote em leiloeiras e pecuaristas na região de Água Boa. De três mil cabeças pagas com cheques sem fundos, 600 saíram da pista de leilões da Estância Bahia. O susto de Maurício Tonhá com o golpe foi grande, mas ainda assim menor que sua reação. Ele procurou todos os pecuaristas que lhe entregaram gado para leiloar e lhes disse exatamente aquilo que gostariam de ouvir: “Vou pagá-los até o último centavo, muito embora não tenha capital pra tanto. Confiem em mim!”.

Maurício Tonhá pegou a estrada para Araçatuba. Lá, enfrentou jagunços e esbarrou em oficiais de justiça. Não conseguiu receber o montante que lhe era devido, mas embolsou a metade. Refez o caminho de volta. Em Água Boa se reuniu com os amigos Celso Tura, Laércio Fassoni e Pedro Bonetti. Contou a eles com detalhes o que aconteceu. Os três lhe emprestaram o dinheiro que faltava para a quitação das 600 reses.

Após pagar o último centavo Maurício Tonhá se sentiu aliviado. Estava endividado, tocava uma pequena empresa, mas mantinha a cabeça erguida e continuava olhando as pessoas nos olhos.

O calote sofrido por Maurício Tonhá ao invés de tirá-lo do ramo lhe deu mais ânimo e reforçou sua imagem junto ao mercado pecuário enquanto homem correto, que honra compromissos até mesmo na adversidade.

 

O Mega

 

Mega em Água Boa antes dos leilões virtuais

Os ventos sopravam favoráveis. A empresa ultrapassou a casa de 12 anos de fundação. Tudo ia muito bem, mas faltava o lance diferenciado, o salto definitivo. Novamente a intuição de Maurício Tonhá mexeu com a boa incredulidade de seu círculo de amizade. Ele queria realizar um grande e diferenciado leilão. “Será que ele consegue?” – Questionavam seus amigos.

Dona Jane Cristina e César se assustaram. Os dois conheciam bem a empresa, porque desde o primeiro momento compartilharam sua gerência e administração. Ambos sabiam que não seria fácil montar estrutura para o manejo de tantos animais assim e, que não menos difícil seria encontrar tal quantidade de animais para levá-los à pista.Dez é referencial. Quem é nota 10 é o melhor. Com esse número na mente Maurício Tonhá reuniu-se com a família no final de 2000 para anunciar algo muito ousado, mas viável. Na sala de sua casa, disse a sua mulher, dona Jane Cristina, e do cunhado César Friedrichs, que em 2001 a Estância Bahia faria um leilão diferenciado em Água Boa, para vender 10 mil cabeças de bovinos a campo em comemoração ao seu décimo aniversário.

Leilão com a marca Estância Bahia movimenta a cadeia pecuária

Maurício Tonhá procurou tranquilizá-los apresentando uma lista com cinco mil cabeças que iriam ao leilão. Ao leilão, não, ao Megaleilão. No dia seguinte a reunião os três se encontraram no escritório do grupo empresarial. Antes que o cunhado dissesse algo, César tirou do bolso uma lista com outros cinco mil animais que poderiam completar os 10 mil. Os dois se abraçaram diante do olhar de felicidade de dona Jane Cristina.

O projeto do Megaleilão ou simplesmente Mega. despertou interesse jornalístico. Ouvido pelo Canal do Boi Maurício Tonhá falou sobre a quantidade de animais que pretendia vender. Sua entrevista criou expectativas, mas levantou desconfiança a ponto de um assinante da TV no Rio Grande do Sul ligar para ele, no escritório da Estância Bahia.

O nome é Mega, mas podem chamá-lo de superlativo

No telefonema o telespectador tentou ridicularizá-lo dizendo que “Nenhum vivente na face da ‘tera’ seria capaz de tamanha proeza”. Maurício Tonhá retrucou, mas do outro lado da linha o gaúcho aumentava o tom da crítica, a ponto de chamar a proposta de picaretagem. O fundador da leiloeira não engoliu o atrevimento e, além de se defender à altura, gritou a frase que serviu de logomarca ao seu grande leilão, “Olha seu fulano, vou vender não apenas 10 mil cabeças. Vou vender 10.001”.

Não em resposta ao crítico telespectador, mas em nome do projeto e vitalização de seu grupo empresarial, Mauricio Tonhá realizou com sucesso o Mega 10001 em Água Boa. À batida do martelo sua equipe vendeu os 12.861 animais em pista. Nos anos seguintes os números se tornaram ainda mais expressivos superando 40 mil cabeças.

Da resposta de Maurício Tonhá ao telespectador nasceu o nome Mega 10001, que nos anos subsequentes virou 10.002, 10.003…  Ou seja, a empresa se prepara para vender 10 mil cabeças mais a dezena que representa o ano da realização do evento.

Desde sua criação o Mega  é o maior leilão da pecuária mundial. Sua realização aquece a economia de Água Boa e região e desperta interessa nacional. Para atender melhor à demanda dos pecuaristas mato-grossenses esse grande evento precisava de mais de uma praça. Essa realidade novamente resultou numa reunião em família para sua pluralização. Novamente reunido com a mulher e o cunhado, Maurício Tonhá falou de seus planos de expansão para Cuiabá. Ao invés de ouvir duas aprovações, escutou quatro, porque a direção da Estância Bahia tinha dois novos integrantes: seus filhos Guilherme e Gabriela. Assim, num ambiente de otimismo, em 2007 ganhou forma o projeto do Mega 10.007 de Cuiabá.

À estrutura do Mega de Água Boa, numa fazenda do grupo empresarial à margem da rodovia BR-158, se juntou o Centro de Eventos da Estância Bahia, numa área rural também do grupo, ao lado da rodovia BR-364 (Km 394), na saída da capital para Rondonópolis e Campo Grande, onde desde 2007, anualmente se realiza o Mega de Cuiabá.

O Mega foi a porta de entrada do Grupo Estância Bahia em Cuiabá, onde gera empregos e recolhe impostos. Perfeitamente integrado à economia e aos meios sociais cuiabanos,.

O mundo econòmico cada dia mais ganha contornos virtuais e o Mega migrou em boa parte para essa nova ferramenta comercial. A Estância Bahia permanece com negócios em Água Boa, mas sua sede se transferiu para Cuiabá em junho de 2018.

Em Cuiabá, todos os anos, a Estância Bahia promove leilões presenciais e virtuais de bovinos a campo, de touros, matrizes, cavalos de raça e enfim, da cadeia pecuária. Além deles, realiza anualmente em parceria com a Associação de Apoio à Criança com Câncer (AACC) um leilão abrangente e beneficente para arrecadar fundos ao Hospital de Câncer de Mato Grosso.

Logomarca da administração do prefeito Maurício Tonhá

POLÍTICO – Além de vereador campeão de votos, Maurício Tonhá coordenou no Vale do Araguaia a campanha de Blairo Maggi ao governo em 2002. De 2005 a 2012 foi prefeito de Água Boa. Realizou uma administração considerada extraordinária. Deixou a prefeitura com todas as ruas pavimentadas e uma área também com asfalto prevendo a expansão urbana. Seu vice-prefeito nos dois mandatos foi o advogado gaúcho Luiz Schuster.

Em 2014 Maurício Tonhá botou seu nome à disposição do PR (agora PL), para disputar do governo.  A Executiva do partido preferiu apoiar Lúdio Cabral (PT) para governador com Teté Bezerra (MDB) de vice. A escolha dos republicanos foi definida por sua cúpula, que entre outros nomes era formada por Pedro Nadaf e o prefeito de Cuiabá, Emanuel Pinheiro (à época deputado estadual).

Cuiabá, 2018, num evento no auditório do Senar

PS – Este texto é parte da série VULTOS MATO-GROSSENSE e ao mesmo tempo uma homenagem a Maurício Tonhá, que com a graça de Deus vence o  coronavírus, internado num leito em São Paulo, apresentando sinais de melhor e com perspectiva de alta na quinta-feira, 18. Desde o final de semana e até ontem, 16, Maurício Tonhá foi mantido numa unidade de terapia intensiva.

Saúde Maurício! A pecuária mato-grossense espera que volte o quanto antes à sua liderança.

Eduardo Gomes – Boamidia

FOTOS:

1 e 5 – Marcos Negrini

2 – Arquivo Prefeitura de Água Boa

3 – Site público Câmara Municipal de Água Boa

4 – Felipe Barros

6 e 7 – Marcos Lopes

8 – Dinalte Miranda 

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