CUIABÁ – 302 ANOS; Um olhar realista e irreverente sobre a Capital: ouro, guerra, fé…

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Enlutada, a cidade, fundada em 8 de abril de 1719, aniversaria em meio a mortes e contaminação pela Covid-19

EDUARDO GOMES Da Reportagem JC Patrício
Na quase tricentenária Igreja do Rosário, não havia espaço para a negritude santificada de Benedito, nem de seus devotos

Passarinhos cantavam. O sol era escaldante como agora.

Agrupados, os senhores aguardavam a assinatura da ata de fundação, encabeçada pelo bandeirante sorocabano Pascoal Moreira Cabral.

Pobre eram pobres. A escravidão oficial recebia as bênçãos da Santa Madre.

Índios podiam ser capturados – não eram considerados seres humanos.

Impecável num terno sob medida de S&C, tradicional alfaiataria paulistana, Moreira Cabral se preparava para o momento solene – botar o jamegão no papel. Ao seu lado, seus embarcadiços.

Baixa umidade do ar. Calor imenso. Ameaça de chuva. O bandeirante suava muito.

Num desnível do terreno aurífero, Moreira Cabral escorregou.

Não foi ao chão, mas o movimento em falso causou constrangimento e apreensão aos que presenciaram a cena.

Do bolso de seu paletó recheado de dinheiro, caiu um maço de notas.

Para evitar comentários maliciosos, o bandeirante disse que a dinheirama era de seu mano querido.

– Ooooooooh!, concordaram os presentes porque sabiam a força que o homem tinha.

Um jovem que acompanhava Moreira Cabral lamentou o tropeção que causou o grito sufocado dos participantes.

Condoído, disse a um colega ao lado que o bandeirante sofreu vertigem com o calorão: – ‘Crima nubrado’.

O outro sugeriu: – Dá uma toalha azul pra ele.

Blém-blém-blém-blém, batia o sino da Igreja Nossa Senhora do Rosário, símbolo do catolicismo, chamando pra missa das 6 horas.

Dono das Lavras em seu entorno, Miguel Sutil estava ocupado e não iria. Fechado em seu quarto com Cassombombo, seu escravo sexual, tinha mais o que fazer.

Cassombombo era o negro que o atendia sexualmente, segundo o escritor Ricardo Guilherme Dicke.

Cassombombo não foi o único negro humilhado ao longo de três séculos, nesse município onde nasceu o herói Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon.

São Benedito, o reverenciado santo dos cuiabanos católicos, enfrentou marginalização pela branca Santa Madre.

Isso mesmo! Na quase tricentenária Igreja do Rosário, no topo do morrote à margem do córrego da Prainha, não havia espaço para a negritude santificada de Benedito, nem de seus devotos.

A solução foi a construção de uma capela ao lado do templo dos senhores.

Mais tarde, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito democratizou-se.

Em seus bancos, nas manhãs das quintas-feiras, a presença do Comendador João Arcanjo Ribeiro era figura obrigatória, até que uma certa Operação Arca de Noé o afastou daquele convívio cristão.

O ouro jorrava e a população amava a Coroa Portuguesa.

Não havia PCdoB nem Psol. Todos rezavam pela mesma cartilha ideológica.

Isso acontecia quando a América Latina era feudo dos reis de Espanha e Portugal.

Pouco tempo depois, em 9 de maio de 1748, a Coroa Portuguesa criou a Capitania de Mato Grosso, numa área sob domínio de São Paulo.

O nepotismo luso mostrou sua força e o rei Dom João VI nomeou seu primo e capitão-general Dom Antônio Rolim de Moura Tavares para governar o território recém-emancipado.

Assim surgiu o primeiro grilo de que se tem notícia no continente.

Mais tarde, essa prática seria bem aperfeiçoada e chegamos ao inusitado da terra em segundo e terceiro andares.

Mato Grosso era um imenso vazio demográfico.

Cuiabá tinha 32 anos e a aventura em busca do ouro empurrava cada vez mais a fronteira Oeste pra dentro dos domínios espanhóis, quando Rolim de Moura fundou Vila Bela da Santíssima Trindade, em 19 de março de 1752, para ser Capital do naco de terra que o primão lhe dera pra governar.

Até parece com o agora.

Um primo do rei governando, num palácio construído por mão de obra escrava, numa terra conquistada na esperteza agrária pela fragilidade do Tratado de Madri, que, por falta de GPS, tinha a utilidade de cobertor nas ensolaradas tardes de Mato Grosso.

Em 1822, o Brasil conquistou sua Independência, enquanto Cuiabá garimpava em paz.

Em 28 de agosto de 1835, quando Dom Pedro II era imperador, o Império transferiu a sede do Governo para Cuiabá.

Os poderosos do Governo, com os togados, disseram adeus e pegaram a estrada com o círculo do poder.

Isso aconteceu logo após a Rusga, movimento que botou em campos opostos quem mamava e aqueles que queriam mamar.

Depois da Rusga, a cidade de Moreira Cabral nunca mais foi a mesma – briga, briga, briga pela mamação.

Vila Bela (521 km a Oeste da hoje Capital) ficou sozinha com seus negros, muitos sofrendo com o maculo e cuidando de uma certa bandeira verde e amarelo, nas barrancas do Guaporé, junto à Serra de Ricardo Franco, onde, mais tarde, o poderoso Eliseu Padilha encontrou o verdadeiro Caminho das Índias.

Finalmente, aconteceu a Proclamação da República, que teve a tímida participação do cuiabano de Mimoso, Cândido Mariano da Silva Rondon, à época, jovem oficial do Exército e que, mais tarde, seria o herói Marechal Rondon e diria a célebre frase sobre a relação da sociedade envolvente com os índios: “Morrer se preciso for; matar, nunca”.

Veio o horror da guerra com o Paraguai. O Almirantado em Assunção decidiu invadir Cuiabá.

A cidade recorreu a um velho lobo do mar, o ex-mercenário Augusto Leverger, a quem entregou sua defesa, enquanto figurões do poder se embrenhavam cerrado adentro, em Chapada dos Guimarães.

Leverger desceu o rio Cuiabá e o desviou num trecho onde hoje é Barão de Melgaço.

Ali instalou canhões que poderiam botar a pique a frota inimiga.

Solano López recuou. Temia o comandante mato-grossense.

A defesa de Cuiabá rendeu a Leverger o título de Barão de Melgaço, o nome da cidade onde fez a proeza, e da vizinha Santo Antônio de Leverger.

Na Capital, empresta seu título para denominar a Academia Mato-grossense de Letras, que reúne a intelectualidade literária mais produtiva do quarteirão de sua sede.

Em Barão de Melgaço, o herói deu o nome de Siá Mariana a uma baía – em homenagem a um de seus rabos de saia.

Veio a guerra contra o Eixo. Cuiabanos lutaram bravamente, no teatro de operações da Itália.

Algumas vezes, entrevistei ex-pracinhas da FEB e, dentre eles, Feliciano Moreira da Costa, Ismael Costa Neves e Gabriel de Souza Guimarães, cuiabanos de fibra, que lutaram em Monte Castelo e outras frentes contra os nazistas de Adolf Hitler.

Vencido nazismo, o Brasil passou a ser rondado pela União Soviética, com seu regime comunista.

Em 1964, os militares, com apoio de civis, tomaram o poder.

De Cuiabá, partiu a tropa do 44º Batalhão de Infantaria Motorizado – que se chamava 16º Batalhão de Caçadores -, sob o comando do então coronel Meira Mattos, que ocupou o palácio presidencial.

CERRADO – O ano de 1970 foi o marco temporal para a conquista do cerrado, que começou em Rondonópolis (212 km ao Sul de Cuiabá), na Fazenda São Carlos, com o produtor Adão Rigrandino Salles, pai do ex-governador Rogério Salles.

Em Cuiabá, no ano 1970, nasceu a Universidade Federal de Mato Grosso, criada pelo presidente Médici e o ministro da Educação, Jarbas Passarinho – seu primeiro reitor foi o médico cuiabano e filho do lendário Bugre, Gabriel Novis Neves.

A população mundial aumentando sem parar, enquanto a capacidade de produzir alimentos não acompanhava a demanda crescente.

Mato Grosso entrou em cena com seu cerrado, que virou celeiro de produção de soja, algodão, milho e arroz.

De quebra, passou a transformar proteína vegetal em proteína animal.

Claro que não se produz em Cuiabá, mas é aqui, onde tudo se decide.

É aqui que o banco libera o financiamento; que o Governo dita regras ambientais, agrícolas e agrárias; e se estabelecem alíquotas tributárias ou desoneração para o agronegócio.

Assim nasceu e se desenvolveu Cuiabá, que ora chora e sofre com a pandemia da Covid-19.

Essa abençoada e ensolarada cidade completa 302 anos no próximo dia 8.

E, desde seus primórdios, transmite em calor humano aos que batem à sua porta a alta temperatura que é uma de suas características, tendo por testemunha o céu mais azul e bonito que reflete nas águas do rio que lhe empresta o nome.

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