Herói de Mato Grosso, o Marechal Rondon visto pelo olhar de seu povo

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MORRER SE FOR PRECISO MATAR, NUNCA

O Brasil conhece os feitos do herói, mas pouco se fala sobre a origem e os laços que mantinha com sua gente

EDUARDO GOMES Da Reportagem
Eduardo Gomes
O joão-de-barro, ao lado de outro de sua espécie, fez casa no ombro amigo da estátua de Rondon

Mato Grosso conhece bem o Marechal Rondon, herói nacional, vulto internacional.

Mas quem sabe sobre por sua origem, laços familiares e o amor que sentia por sua terra, Mimoso, a vila ao lado da Baía de Chacororé, onde nasceu em 5 de maio de 1865, são os descendentes de sua linhagem e outros moradores que vivem naquele paraíso onde as águas refletem o azul do céu e até pássaros se curvam ao filho ilustre do lugar.

A exemplo do joão-de-barro, que ao lado de outro de sua espécie fez casa no ombro amigo da estátua de Rondon e que orgulhoso de seu endereço se apresentou cantando ao DIÁRIO para mostrar que ali, população e natureza reverenciam a grandeza do homem que certa vez disse no Chapadão do Parecis após ser flechado por um Nambikwara: “Morrer, se preciso for; matar nunca”.

Quanto maior volume de serviço prestava ao Brasil, mais Rondon se distanciava de sua terra, de onde saiu criança órfã em busca de um lar, na Cuiabá que deixou para se tornar figura quase onipresente na interiorização do Brasil, demarcação de fronteiras e, sobretudo, agir em defesa dos povos indígenas.

O Herói Mato-grossense não tinha condições de ser mimoseano presente e ao mesmo tempo executar as mais diversas tarefas país afora.

Divulgação

Escola Santa Claudina

Ele construiu uma escola na sua terra e lhe deu nome de Santa Claudina

Um dia, diante do espelho, em sua morada no Rio de Janeiro, Rondon viu o envelhecimento em sua profundeza na alma.

O acumulado de anos lhe roubava a destreza, a voz firme de comando, o olhar que ia além da linha do horizonte.

Aos 81 anos sentiu que precisava levar adiante um sonho há muito acalentado: construir uma escola na sua terra e lhe dar o nome de Santa Claudina, para reverenciar a memória de sua mãe, Claudina Freitas Evangelista, que partiu em 1867, quando seu filho único tinha 2 anos.

Naquele dia, estava no Rio o jovem Aecim Tocantins, que havia anunciado que o visitaria. Aecim era filho de seu amigo Odorico Ribeiro dos Santos Tocantins, o telegrafista que tantas vezes o hospedou na Capital mato-grossense.

Quando criança, Aecim engraxava as botas do hóspede ilustre. À época, em Cuiabá, não havia graxa para calçados, o que o fazia lançar mão da sabedoria popular utilizando folhas de papoulas para tanto.

Aecim foi ao encontro de Rondon. O anfitrião lhe falou sobre o sonho e que precisava contratar um engenheiro para construir a escola.

Divulgação

Marco do Nascimento

O marco do nascimento do Marechal Rondon, em Mimoso

O visitante sorriu e lhe disse que lhe apresentaria a um jovem que poderia materializar seu sonho.

Recém-formado em engenharia civil na Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, o sergipano José Garcia Neto estava no Rio à espera de voar para Mato Grosso.

Levado por Aecim a Rondon, Garcia Neto firmou compromisso de construir a escola, que seria a primeira na vastidão pantaneira referenciada por Chacororé. Mais tarde Garcia Neto seria prefeito de Cuiabá, duas vezes deputado federal, vice-governador e governador.

Depois de tantas conquistas nacionais, finalmente o Herói Mato-grossense encontrou um momento seu, de realização pessoal.

Em 13 de junho de 1948, Rondon tinha 82 anos quando inaugurou a Escola Rural Estadual Santa Claudina, numa solenidade na vizinha Igreja de Santo Antônio, cuja data se celebra naquele dia.

Com a escola, construída no local onde anteriormente havia a casa onde nasceu, Rondon reverenciava a memória da mãe, Claudina, que carregava nas veias sangue Bororo e Terena, etnias com aldeamentos no Pantanal, e do pai, Cândido Mariano da Silva, pantaneiro miscigenado com ascendência portuguesa, espanhola e Guaná, e que pouco antes de morrer vítima da varíola, em 1864, e com Claudina grávida, pediu ao seu irmão Manuel Rodrigues da Silva Rondon, que cuidasse da criança e a educasse em Cuiabá, onde residia, pois em Mimoso não havia escola.

Aecim foi com Rondon a Mimoso para inaugurar a escola. Mato Grosso em peso se dirigiu pra lá.

Divulgação

Porfessor João Bosco

O professor e secretário da Escola Santa Claudina, João Bosco Queiroz da Costa

O governador Arnaldo Estêvão de Figueiredo, deputados, religiosos, antigos telegrafistas, o cacique Cadete Bororo e outros líderes de várias etnias.

Cadete e o Herói Mato-grossense eram amigos.

Na inauguração em Mimoso, o líder Bororo quebrou o protocolo ao abraçá-lo e aos prantos lhe dizer, “Vem morrer aqui, porque Bororo sabe chorar seus mortos”.

Numa entrevista que Aecim me concedeu em 2010, quando vivia a plenitude da terceira idade sendo reverenciado por seu título: Professor Aecim, ele revelou que o pedido de Cadete foi respondido pelo silêncio sufocado de Rondon e pelo brilho de seu olhar que nem mesmo a cegueira que avançava, conseguia ofuscar.

Em meio ao abraço, quatro olhos marejados. Algum tempo depois o Professor Aecim seria contabilista.

Fundaria e presidiria o Conselho Regional de Contabilidade de Mato Grosso, participaria da criação da Faculdade de Filosofia de Cuiabá, integraria o Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, comporia a Comissão Especial de Divisão do Estado quando da emancipação de Mato Grosso do Sul, exerceria mandatos de vereador e prefeito da Capital e seria conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

No distante 13 de junho de 1948 Mimoso vivia o apogeu. Distante 115 quilômetros ao Sul de Cuiabá, no município de Santo Antônio de Leverger, a vila recebeu pela última vez seu filho ilustre, ganhou uma escola, celebrou a data de seu padroeiro Santo Antônio e reverenciou a retomada de Corumbá (agora Mato Grosso do Sul) em 13 de junho de 1867 pelas forças do tenente-coronel Antônio Maria Coelho.

Arquivo Pessoal

Professor Anderson

O mimoseano e parente de Rondon, Anderson Evangelista de Sá

Hoje, rodovia pavimentada garante acesso àquele lugar, com um terço do trajeto duplicado, mas à época ir a Mimoso era uma aventura margeando o Pantanal. Rondon permanecia ausente.

Seus contatos com a terra natal eram poucos, mas ele os aproveitava para ouvir velhos amigos. Mesmo distante para executar missões que o Exército lhe determinava, ele acompanhava o que ocorria em Mimoso e na sua sesmaria Morro Redondo de 13.069 hectares.

Quem o informava, cuidava de sua propriedade e o representava no local era o pecuarista Virgílio Gonçalves de Queiroz, que morava em Porto de Fora, distante 20 quilômetros.

O professor e secretário da Escola Santa Claudina, João Bosco Queiroz da Costa, mimoseano e neto de Virgílio, conta que o avô escrevia cartas a Rondon, as entregava a Odorico Tocantins, em Cuiabá, que as despachava ao destinatário, e que o mesmo procedimento, ao inverso, era adotado quando das respostas. João Bosco além de professor de História, se dedica ao estudo sobre Rondon, tem acervo de sua relação com Mimoso e se sente gratificado por trabalhar na escola que reverencia dona Claudina, cujo corpo está sepultado à frente daquele estabelecimento de ensino, num pátio sombreado por enormes figueiras e flamboyants.

A Escola Santa Claudina com 515 alunos matriculados nos ensinos Fundamental e Médio, em três turnos.

Reprodução

Cacique e cadete

Rondon ficou famoso, também, pela frase célebre: “Morrer, se preciso for; matar nunca”.

É uma das referências de Mimoso, vila que tem cerca de 600 habitantes.

O contraste entre esses números não é erro de digitação nem distorção.

“Acontece que nós recebemos estudantes das vilas e zona rural no entorno”, esclarece o diretor do estabelecimento escolar, o mimoseano e parente de Rondon, Anderson Evangelista de Sá.

Pode soar estranho alguém sem nenhum sobrenome comum aos de Rondon ser seu parente.

Isso, pra quem não mora em Mimoso ou não conheça bem aquela vila.

Evangelista é o passaporte, a palavra-chave pra identificar membro da família do filho ilustre. Dona Claudina era Evangelista.

Rondon foi sobrenome adotado pelo Herói Mato-grossense para homenagear o tio Manuel Rodrigues da Silva Rondon, que o adotou aos 6 anos em Cuiabá e que lhe abriu as portas do mundo.

Dos 2 aos 6 anos, o menino Cândido Mariano morou com o avô paterno José Mariano da Silva, que morreu e consequentemente o levou a morar com o tio.

O professor Anderson Evangelista se emociona ao falar sobre o parentesco.

“Meu avô materno, Lino Lucas Evangelista, era primo de dona Claudina, a mãe dele (Rondon”.

“Existe uma química entre Rondon e os moradores de Mimoso”. Quem pensa assim é o professor Anderson Evangelista, revelando que desde os jovens até os mimoseanos da terceira idade todos se referem ao Herói Mato-grossense com um quê de intimidade, bem ao estilo pantaneiro, “Ele (Rondon) é dos Evangelista, ‘dgente’ nossa”.

A consanguinidade com Rondon se faz presente entre moradores de Mimoso, mas com grau de parentesco cada vez mais distante, pois o Herói Mato-grossense Marechal Cândido Mariano da Silva Rondon morreu no Rio de Janeiro, aos 92 anos, em 19 de janeiro de 1958 e seu corpo foi sepultado com Honras de Chefe de Estado, no Cemitério São João Batista, naquela cidade.

Portanto, de sua morte aos dias atuais se passaram 63 anos, o que cria um longo espaço temporal entre ele e sua descendência.

A um passo da conclusão da pavimentação da Estrada Verde ligando Cuiabá a Rondonópolis, margeando o Pantanal e cruzando Mimoso, aquela obra não é o maior desejo da população.

Se perguntarem aos moradores o que desejam para a vila a resposta será comum a todos: que os restos mortais do filho ilustre sejam trasladados para o Memorial Rondon, construído em forma de oca sobre Chacororé.

A família de Rondon se concentra no Rio de Janeiro e contatos feitos desde 2003, para tratar do traslado, nos governos de Blairo Maggi, Silval Barbosa e Pedro Taques não conseguiram consentimento familiar.

Uma fonte ligada ao Palácio Paiaguás certa vez revelou que os Rondon temem aproveitamento político do fato, o que jamais seria aceito pelo Herói Mato-grossense.

Em Mato Grosso a voz da linhagem direta de Rondon é de sua bisneta e freira da Congregação do Sagrado Coração de Jesus, Irmã Elizabeth Rondon, que atua na Terra Indígena Menkü, da etnia Myky, em Brasnorte, no Chapadão do Parecis (distante 570 km a Noroeste de Cuiabá).

A religiosa é discreta, evita falar e desconversa sobre o traslado.

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