Marechal Rondon sempre esteve ao lado de sua Mimoso

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MIMOSO

Antes a mão estendida; agora, o turismo cívico ao Memorial Rondon pode se transformar em fonte de renda para a população

EDUARDO GOMES Da Reportagem
Júnior Silgueiro
Memorial Rondon, em Mimoso

“Ele foi presença constante em Mimoso, mesmo ausente pelas jornadas de interiorização do Brasil e de integração nacional”. Assim o Professor Aecim Tocantins definia o Marechal Rondon no tocante à sua terra. Esse relato não é o único reconhecimento da ligação do filho ilustre com sua origem. A história oral mimoseana também atesta esse elo e muito embora se volatilize com o tempo, ela ainda guarda detalhes sobre a afirmação ao Professor.

Muitas viagens de Rondon para Cuiabá foram pelo rio que empresta o nome à Capital e que banha Barão de Melgaço (140 km a jusante do destino). Quando fazia o percurso de Corumbá (agora MS) a Cuiabá, ou enviava barcos para a mesma, o Herói Mato-grossense comunicava ao amigo e telegrafista Odorico Ribeiro dos Santos Tocantins, pai do Professor Aecim Tocantins, para que o mesmo avisasse às lideranças de Mimoso. Transmitida a mensagem, líderes locais se dirigiam a Barão, na vizinhança, onde aguardavam a chegada das embarcações abarrotadas com presentes do filho ilustre do lugar.

População sempre reverencia Rondon

População sempre reverencia Rondon em Mimoso

Lápis, cadernos, borrachas para escritas, tabuadas, peças de tecidos, chapéus, sombrinhas, botas, botinas, chinelos, brinquedos, bolas de futebol, tralha de pescaria, lampiões, lamparinas, esporas, freios para animais, enxadas, foices, cavadeiras, enxadões, serrotes, cunhas, limas de amolar, martelos, marretas, grupiões, facões, garfos, facas, colheres, panelas, frigideiras, torradores de café, máquinas de moer carne e de costurar, velas, xaropes, vermífugos, filtros d’água, trempes de fogão, latões para leite, baldes, leques, dobradiças, fechaduras, botões, agulhas, relógios de parede e muitos outros itens eram desembarcados e em carretões ganhavam o rumo de Mimoso, onde uma distribuição democrática contemplava as poucas famílias ali residentes.

“Rondon nunca nos deixou”, comenta com maturidade o estudante e vaqueiro mimoseano João Victor Marques de Barros, 17 anos, aluno do segundo ano do ensino médio na Escola Santa Claudina e apaixonado por campear nas invernadas encharcadas montando seu Coronavírus, Cavalo Pantaneiro e animal indicado para a lida naquele universo das águas. O carinho de Rondon com seus conterrâneos é narrado de geração para geração. Essa pode ser a razão para a química que os semblantes não conseguem esconder quando se fala sobre ele. “É (Rondon) para sempre; sempre, sempre, sempre…”, salienta João Victor.

O afeto por Rondon se funde e se confunde com o amor por Mimoso. João Victor espera cursar faculdade, mas sem arredar o pé de sua terra. Com calma, pois há tempo para tanto, ele acredita que encontrará o curso ideal e que se encaixe em sua realidade.

Um homem que foi capaz de escrever uma das mais belas páginas da cidadania brasileira não poderia mesmo ser indiferente aos seus. Rondon, como o define o professor e secretário da Escola Santa Claudina, João Bosco Queiroz da Costa, “Tinha o olhar sobre os indígenas, a ocupação do Brasil interior e a demarcação das fronteiras, mas seu coração batia e se desmanchava mesmo era pela nossa terra, a pequena Mimoso”. Santa Claudina foi a escola que Rondon construiu em sua terra.

Arquivo

Marechal Rondon

Marechal Rondon

Mimoso é uma homenagem coletiva e viva a Rondon. Todos os mimoseanos se rendem à sua memória. Fora de sua terra, o país também se curva a ele. Incontáveis próprios públicos, escolas, creches, viadutos, faculdades, quartéis, conjuntos habitacionais, lojas maçônicas, praças, avenidas, ruas, bibliotecas, prédios, elevados, rodovias e aeroportos levam seu nome Brasil afora. Somem-se a essas reverências, Rondônia; as cidades de Rondonópolis, Marechal Cândido Rondon (PR) e Rondon do Pará (PA); e o distrito de Marechal Rondon, em Campo Novo do Parecis (390 km a Noroeste de Cuiabá).

Mesmo com as merecidas homenagens, Rondon enfrentava resistência da classe política. Porém, a grandeza de sua obra exigia que o mesmo fosse reconhecido. Assim, em 1918 aconteceu a primeira grande homenagem. Naquele ano, o deputado estadual, agrimensor e tenente Otávio Pitaluga fez o levantamento topográfico da vila Rio Vermelho, à margem do rio do mesmo nome, no município de Cuiabá e que tinha como grande destaque uma estação telegráfica. Pitaluga admirava Rondon, que instalou o citado telégrafo, e em razão disso apresentou na Assembleia um projeto alterando o nome do lugar para Rondonópolis (200 km a Sudeste de Cuiabá), o que foi aceito. Mais tarde Rondonópolis pertenceria a Poxoréu e seria cidade, ora com mais de 236 mil habitantes.

As homenagens foram se sucedendo. O antigo Território Federal do Guaporé foi rebatizado como Rondônia, nome com o qual se tornou estado. No Paraná, o município de Marechal Cândido Rondon, na fronteira com o Paraguai, com mais de 52 mil habitantes; e em Mato Grosso, além de Rondonópolis, o distrito de Marechal Rondon, em Campo Novo do Parecis reverencia o Herói Mato-grossense. Rondon ganhou os títulos de Patrono das Comunicações do Brasil e Patrono da Arma de Comunicações do Exército.

A obra de Rondon é tamanha, que o mesmo é reverenciado até em homenagem a um projeto de integração nacional que leva seu nome. No Pará, uma vila sem denominação, à margem da BR-222 e banhada pelo rio Ararandeua passou a ser chamada de Vila Rondon, em alusão ao Projeto Rondon, que ali mantinha num núcleo de atendimento de saúde coordenado pelo médico Camillo Vianna. Em 1982 ao se emancipar o lugar ganhou o nome de Rondon do Pará (520 km a Sudoeste de Belém) e tem mais de 52 mil habitantes.

No plano internacional, o Meridiano 52 recebeu seu nome. Em 1918 ele recebeu a Medalha Centenário de David Livingstone da Sociedade Geográfica Americana; e em 1919, foi condecorado com a Medalha do Explorers Club, de Nova York. Além dessas honrarias, recebeu muitas outras.

 

ESTRADA VERDE – Mimoso quer ser reconhecido como roteiro turístico cívico e de contemplação. A beleza da Baía de Chacororé com suas aves aquáticas e o multicolorido de sua vegetação tem apelo suficientemente forte para movimentar o turismo. O Memorial Rondon, sobre a lâmina d’água da baía, em sua margem e diante da vila, nunca foi mostrado ao Brasil. Moradores sonham com o vaivém de ônibus e automóveis entre Cuiabá e Mimoso (com 115 km pavimentados), para visitação e safári fotográfico, mas temem a conclusão da pavimentação da Estrada Verde (MT-040/270), que é um trajeto alternativo ligando a Capital e Rondonópolis. Entre Rondonópolis e o distrito de Fátima de São Lourenço, de Juscimeira, trecho da MT-270, a Estrada Verde recebeu o nome de Rodovia João Antônio Fagundes – “João Baiano”, pioneiro na região.

A Estrada Verde cruza áreas do agronegócio. Por ela, carretas e caminhões transportam insumos para as propriedades em seu entorno e escoam sua produção. Mimoso é passagem obrigatória para quem cruza a rodovia, pois a vila se situa entre uma serra que a circunda parcialmente e Chacororé.

A rodovia tem 220 quilômetros de extensão e restam 17 para serem pavimentados. Sua obra se arrasta há duas décadas e quando for concluída os impactos sociais serão grandes em Mimoso, uma vila pacata, formada por uma população que reside em casas distantes umas das outras e que tem apenas uma rua – a mesma que se transforma na Estrada Verde.

O Memorial Rondon é o xodó de Mimoso, mas o mesmo permanece excluído dos roteiros do trade turístico e da Secretaria de Turismo de Mato Grosso. Sem divulgação, poucos turistas o visitam. Se houvesse incremento na visitação, seriam aquecidos os segmentos de restaurantes, bares e conveniência com venda de souvenirs, fretamento de barcos. “Acontece que ele (o Memorial) fica escondido”, lamenta a estudante Maria Gonçalina Teixeira. O vaqueiro João Victor observa que seria preciso criar estrutura mínima para atrair o turismo. “Quem vai se arriscar a visitar um lugar que não tem policiamento nem hospital?”, questiona.

Mesmo com esse questionamento o vaqueiro e os demais moradores querem que o Memorial Rondon saía da subutilização. A criação de uma linha especial de ônibus com frequências diárias de Cuiabá a Mimoso, para transporte de turistas é uma das sugestões. Outra, seria a Assembleia Legislativa passar a entregar a Comenda Marechal Cândido Rondon, em solenidade no Memorial, com acompanhamento pela Banda de Música da 13ª Brigada de Infantaria Motorizada ou da Polícia Militar.      

MEMORIAL – Em 1997 o governo federal criou 10 projetos para comemorar os 500 anos do Brasil em 22 de abril de 2000. Um deles, o Memorial Rondon seria executado em parceria com o governo estadual. Seu projeto arquitetônico, em sintonia com o meio ambiente e com detalhes indígenas, foi assinado pelos arquitetos José Afonso Portocarrero e Paulo Molina. A construção, anunciada festivamente pelo então governador Dante de Oliveira, se iniciou em 2000, com área de 5 mil m² incluindo a passarela de acesso; foi erguida sobre Chacororé e entre paralisações se arrastou até 2016.

A concepção arquitetônica valoriza o aspecto ambiental e seu formato se assemelha ao das ocas nas aldeias, numa alusão a origem de Rondon e seu apego à proteção dos povos indígenas. O pico da obra aconteceu no período que antecedeu a Copa do Mundo de 2014, que teve uma de suas sedes na Arena Pantanal, em Cuiabá. À inauguração, em 2016, numa solenidade presidida pelo então governador Pedro Taques, compareceram netos, bisnetos e primos em graus distantes de Rondon, além de comandantes do Exército.

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