ALFREDO DA MOTA MENEZES Nossa Macondo

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Bolsonaro chamou o presidente do TSE, ministro do STF, de imbecil e idiota

O escritor colombiano, Gabriel Garcia Marques, prêmio Nobel de Literatura, é autor de Cem Anos de Solidão, considerado o maior romance já publicado na América Latina.

No livro, quase tudo se passa em Macondo, cidade imaginada pelo escritor. A base é o realismo fantástico, uma mistura de fatos reais com fantasias.

Brasília, em muitos momentos, parece uma Macondo. Fatos e atos acontecendo ali parecem com os que foram criados por Garcia Marques para sua Macondo. Fiquemos somente nos mais recentes.

Bolsonaro chamou o presidente do TSE, ministro do STF, de imbecil e idiota. O presidente desqualifica o sistema eleitoral brasileiro perante o mundo. Que tem provas, e não apresenta, de que existe fraude nas urnas eletrônicas. Uma dúzia de partidos se mostra contra o voto impresso e, como mais uma pitada do realismo fantástico, a maioria deles apoia o governo Bolsonaro.

Bolsonaro chamou o presidente do TSE, ministro do STF, de imbecil e idiota

Os depoimentos na CPI, entre mentiras e verdades, é uma autêntica Macondo. Bolsonaro disse que está cagando para a CPI. O espetáculo vai continuar porque foi prorrogada por mais 90 dias.  As forças armadas, incomodadas com o apontar de dedos para alguns militares acusados de atos não republicanos pela CPI, arreganham os dentes e, diferente de antes, ninguém nem ligou.

Aproveitando o momento da pandemia, o Congresso aprovou aumento do Fundo Eleitoral quase três vezes maior do que o de 2018. Aprovara antes aumento substancial do orçamento para emendas parlamentares, além de parir três bilhões de reais para comprar tratores. Emendas que ajudam a silenciar o parlamento.

Bolsonaro teve um problema de saúde e apareceu uma nota atribuída a ele em que dizia que o que estava acontecendo era por causa da facada de alguém de um partido aliado do PT.

Logo apareceram gentes dizendo que obstrução intestinal, insônia ou soluço não tem nada a ver com facada e sim com problema emocional do presidente afetado pelas pesquisas de opinião e o momento politico adverso a ele.

No momento que Bolsonaro ia embarcar para São Paulo, o vice-presidente, Hamilton Mourão, embarcava para Angola para um encontro de países de língua portuguesa. Não se sabia o que poderia ocorrer com o presidente e o vice deixava o país. O próximo para assumir a presidência seria Arthur Lira, presidente da Câmara. Não podia porque tem processos na Justiça Federal contra ele. Coisas esquisitas de Brasília.

O vice-presidente também reclamou que não estava sendo convidado pelo presidente para reuniões ministeriais. Que deveria estar por dentro dos assuntos do país, para, se necessário, assumir a presidência numa situação qualquer. E, na hora que podia assumir, se houvesse algo com o presidente, ele se mandou para Angola.

Dando uma pitada de Brasil, não parece o samba do crioulo doido? Garcia Marques, se escrevesse sobre esse cotidiano de Brasília, iriam pensar que estava escrevendo sobre algo irreal, como a Macondo.

Não se ouve na nossa Macondo discussão sobre como melhorar a educação, diminuir o desequilibro social, o desemprego ou a desindustrialização do país. Só coisas estranhas e ao mesmo tempo hilárias.

 Alfredo da Mota Menezes é analista político.