O cuiabano é engraçado sem precisar de palavrão, afirma criador de websérie

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Ator, produtor e roteirista, Thyago Mourão viu seu perfil no Instagram bombar desde que começou a pandemia, saltando de 2 mil seguidores para quase 46 mil em poucos meses. Isso aconteceu após ele viver um revés na vida pessoal e decidir se mudar para Chapada dos Guimarães. Isolado em casa, ele decidiu fazer lives com seu personagem Xô Dito, um senhor pantaneiro que diverte o público com seu tom ranzinza e sua visão prática de mundo. Mas, um jovem que “nasceu” nas lives e ganhou o coração dos seguidores foi Wylon, um bon vivant cuiabano e cheio de auto estima, com cantadas clichês, mas assertivas que chamaram a atenção da musa Rita Cadilac com quem ele chegou a fazer uma live. Quem apareceu nos vídeos também foi o grupo de pagode Molejo. Hoje, a web série mostra que Wylon está dedicado aos estudos.

Em entrevista ao , Thyago fala da referência em Liu Arruda, conhecido por personagens hilários como a família da Comadre Nhara, casada com o Djuca. O casal teve os filhos Ramona e Gradstone. A língua ferina e as falas recheadas de palavrões dos personagens de Liu o fizeram criar vários rivais, inclusive, no cenário político. Mas, para Thyago, apesar da referência cultural, é possível pensar outra forma de fazer humor. Ele conta que quis compor um pantaneiro ancião e, desses estudos, nasceu Dito.

Veja os principais trechos da entrevista

Levar a personagem para o Rio foi porque você ia fazer uma viagem ou você foi especificamente para levar o “Wylon” para o Rio de Janeiro?

Eu ia fazer uma viagem, uma reunião com um produtor lá, só que acabou não dando muito certo, rolou um furo, mas eu já estava com a passagem marcada e aí falei “Ah vou fazer o Wylon dar o rolê dele” e foi um desafio me jogar nisso, me vestir de Wylon, ficar com a voz, produzir e interagir com as pessoas e fazer passeio no Cristo e tudo, registrando, foi um processo bem interessante.

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Thyago Mour�o personagem

Personagem hilário projeta ator de MT

O Wylon mistura várias coisas, ele tem uma referência caipira, é um jovem conectado, muito conectado com a cultura cuiabana e lembra muito os personagens do Liu Arruda, que é uma referência que a gente teve e olhar esses teus personagens em alguma medida lembra. Você tinha isso claro quando pensou nos personagens?

Eu tinha a referência do Liu, mas eu nunca quis fazer algo parecido, na questão da construção estética, do sotaque, da forma de falar como ele fazia. E o carro chefe dele que era a Comadre Nhara e tinha o Djuca que era o apoio ali e Gradstone e a Ramona eram coadjuvantes.

A forma do falar cuiabano, do falar ribeirinho, da Baixada, tem várias nuances e o Liu fazia algumas delas, mas eu nunca tinha visto alguém fazer o pantaneiro, então quando eu fui fazer o Xô Dito. Busquei essa diferença.

O Dito traz muita referência do rural e o Wylon já vem mais com essa coisa da cidade, do urbano. O linguajar que o Liu buscava com a comadre Nhara era um linguajar sem filtro mesmo, da comadre desbocada, porque isso é um pouco do que se vê aqui em Cuiabá. Mas, o palavrão não está no seu trabalho, pelo menos não dessa forma, foi uma opção sua ou isso veio muito natural porque você queria atingir diversos públicos, crianças?

O Liu chegava a ser às vezes constrangedor nas apresentações porque ele realmente ia muito explícito nos palavrões na forma, na brincadeira, era muito engraçado, porque ele era genial

Thyago Mourão

Foi natural, eu acho que eu tento sentir o personagem, sabe? Eu via algumas pessoas falando desse movimento do Liu Arruda sim, as pessoas mais antigas, dizendo que o cuiabano não falava tanto palavrão como o Liu demonstrava. O cuiabano não é agressivo, você tem essa agressividade em alguns momentos de discussão, mas não é assim. Tanto que o Liu chegava a ser às vezes constrangedor nas apresentações porque ele realmente ia muito explícito nos palavrões na forma, na brincadeira, era muito engraçado, porque ele era genial, mas algumas pessoas tinham essa coisa de “ah, mas a gente não é tão assim, a gente é mais carinhoso”.

No meu caso, eu sinto o personagem, eu não tento imitar um personagem, eu tento ser ele e deixar ele fluir, e aí quando ele tem necessidade de falar um palavrão ele fala, mas não é algo assim que eu vou me apoiar no palavrão para tentar fazer a graça, eu acho que não é por aí porque o cuiabano é engraçado sem precisar falar palavrão.

 

É muito evidente que a gente tem vivido aí uma demanda e também uma cobrança para que artistas se posicionam politicamente, que falem do contexto atual, mas também não aparecem muito essas questões de críticas políticas nos seus personagens. Essa é uma escolha pensada ou você separa a suas opiniões políticas dos personagens?

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Thyago Mour�o personagem

Wylon é um bon vivant cuiabano, criado pelo ator Thyago Mourão

Eu entro em alguns temas com muita cautela, porque eu acho que a gente vive uma guerra de narrativas que a gente precisa tomar muito cuidado para tomar partido, embora eu tenha as minhas convicções muito bem definidas e deixo isso evidente em vários momentos no meu trabalho com algumas críticas, e eu coloco isso nos personagens, as vezes de uma maneira mais sutil, às vezes de maneira mais realista, compartilho alguns pontos de vistas. Eu gosto de lutar pelas pautas sabe, mais do que pela narrativa política, e as minhas pautas acabam sendo pautas mais de esquerda, pautas mais progressistas, então eu defendo o movimento artístico, eu não faço piadas homofóbicas, gordofóbicas, racistas, machistas, embora uma coisa ou outra possa aparecer porque é muito difícil escapar do comportamento cultural.

Então, eu abro caixinha de perguntas com o Xô Dito, por exemplo, e recebe “Xô dito, meu amigo tá pegando outro cara, o que eu devo fazer?”, aí o cara espera que eu vá usar o amigo dele, ai eu zoo com ele e falo assim “o que você tem com isso, você tem que cuidar da sua vida, deixa o amigo ser feliz?”. E isso acontece muito, algumas vezes eu faço manifestações de “Fora Bolsonaro” e recebo aquelas críticas naturais da galera que defende e eu me posiciono. Toda contestação eu tento conversar muito, tento ser educado, não sou tão agressivo para militar, mas é isso.

Ser artista em Mato Grosso é uma profissão rentável?

Eu acho bem difícil a gente ter um estado muito rico com uma cultura muito ruim das pessoas ricas desse estado de entenderem o valor da cultura, o valor da arte. A gente tem um estado que está aí nos últimos, entre os estados que sustentam o Brasil com o Agro e com toda essa cadeia da indústria, mas que tem um pensamento que acompanha o boicote à cultura. Isso é muito ruim.

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Thyago Mour�o personagem

Xô Dito faz sucesso respondendo internautas

Você vê acontecer um boicote à cultura em MT?

Vejo acontecendoe e u não digo necessariamente do Poder Público, tá? Deixar bem claro. É um pensamento, a gente está em um estado bolsonarista e o Bolsonaro por si só tem essa rixa com a classe cultural, politicamente falando, que é uma classe também que milita contra ele, e tem esse conflito. Então, o que você ver é muita gente do agro que estão desse lado, da extrema direita, ofendendo o setor cultural, falando da Lei Rouanet que acabou. De alguma forma desmerecendo o trabalho de um artista, eu tive pouco conflito com isso. Às vezes o cara vai contratar o artista mas oferece uma condição muito ruim para o cara se apresentar e ele não está nem aí em ter empatia com isso. Artista é o chão de fábrica, vai trabalhar e tal, e não é por aí. Então eu acho que Mato Grosso precisava evoluir demais nessa consciência de apoiar projetos, entender a importância da arte enquanto formação social, enquanto formação da cabeça dos jovens.

Ano passado, quando o Wylon estava bombando nas lives, chegou a fazer live com a Rita Cadillac, é curioso um personagem que é tão característico da cultura cuiabana, que bebe tanto dessa cultura, ganhar uma expressão nacional. Você acha que há espaço para a cultura cuiabana no cenário nacional?

Tem. E eu tenho certeza que esse é o bastão que está comigo, que eu também carrego, junto com um pessoal que está comigo, de criar esse mecanismo para fazer a nossa cultura ser entendida fora, de maneira natural, de maneira universal. Porque assim, tem coisas que são tão simples que conectam todas as cabeças do mundo, porque são coisas que saem da essência da gente, de um pensamento básico, intuitivo, do ser humano. Quando você consegue trazer isso com a arte, você consegue levar isso para qualquer lugar, você pode ter qualquer sotaque e você consegue se conectar com as pessoas através disso, então acho que é isso que eu tento trazer com o meu trabalho. Porque quando você cai muito na coisa só do linguajar e das expressões, você não consegue romper muito isso, porque não vai fazer muito sentido para a pessoa.

Quem é o seu preferido? Quem você gosta mais de fazer?

Tem períodos. Tem períodos que eu gosto mais de fazer o Wylon, períodos que gosto mais do Xô Dito. Eu acho que é legal ter esse momento porque, incubar o personagem um pouco, ajuda ele a voltar com coisa nova. Então, eu fico meio que revezando o protagonismo deles. Quando eu estreei o Wylon, eu foquei muito nele e o Xô Dito foi ficando de escanteio. E todo mundo, “ah porque o Wylon superou o Xô Dito, que personagem massa”. Eu sou muito autocrítico, então vou sentindo que tem momentos que o personagem vai dando uma esgotada e eu preciso vir com outro de novo, outro que estava ali ganhando fôlego, ele vem com uma coisa nova e eu consigo trazer esse respiro.

Nenhum dos dois tem a sua idade? Você está no meio do caminho. O que tem de Wylon e o que tem de Xô Dito?

Não. Eu estou no meio. Eu acho que no Wylon, eu tenho um pouco dessa malemolência de lidar com a situação, de não esquentar muito, de ser mais carinhoso, porque o Wylon apesar de tudo, ele é carinhoso, não ofende. Do Xô Dito eu tenho um pouco dessa impetuosidade que ele tem, de pensar rápido, de não levar muito desaforo, mas o Xô Dito está muito mais em um lugar de coisas que eu gostaria de falar. Porque eu como Tiago não consigo esculachar alguém como eu faço com o Xô Dito, está um pouco nessa vontade reprimida de mandar alguém tomar no cesso, que eu posso acabar usando o personagem para isso.

E a autoestima do Wylon, você tem?

Não, eu acho que o Wylon tem mais. Ele tem uma autoestima inabalável, ele não entende o que é uma crítica.

Ele nunca levou um fora na vida?

Não, ele já levou e fala “eu já levei, sou um ser humano como qualquer outro”. Mas, é algo que não afeta ele não, ele tá de boa sempre.

Em que pé está a websérie do Wylon? O que ele está fazendo na história?

Ele está na casa da professora Geisa. Passando um tempo lá, incomodando ela, o Xô Dito está em casa, vivendo os conflitos de um pebolim que ele acabou de recuperar e quer revender, mas não consegue também. E o Nuca de Cobra, que é o personagem novo está ali permeando na facção. Mas, a ideia da websérie eu estou chegando no momento final da primeira temporada, eu imaginei que fosse fazer cinco ou seis episódios nesse primeiro momento e é uma temporada piloto, está tudo muito novo para mim.  Fazer a gravação da série e colocar parte dos bastidores, fazer enquete, deixa a galera interagir é tudo muito novo para mim também. E tudo isso é muito interessante, você mistura performance teatral e minhas realidades, porque sou eu que vou viajar e levar o personagem, eu que tenho que criar o porco. São coisas que são legais de viver e migrar para as redes sociais e fazer isso é bem desafiador.