CIDADE DO MEDO; Ruptura em facção levou à matança na capital do agro em MT

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Ao todo já são 12 mortes em cerca de 20 dias em Sorriso; número elevado dificulta investigação

Reprodução

O delegado Eugênio Rudy Júnior, da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pesso, é responsável pelas investigações

LIZ BRUNETTO DA REDAÇÃO

O Município de Sorriso se tornou um ponto fora da curva e vem chamando a atenção pelo aumento no número de homicídios em um curto espaço de tempo. Em um intervalo de apenas de 20 dias já foram 12 homicídios.

Os crimes levam apreensão ao Município, que é o mais rico do Brasil entre aqueles que produzem alimentos, com um PIB agropecuário estimado em R$ 5,3 bilhões em 2020. Em razão disso, já foi considerada a “capital nacional do agronegócio”.

As investigações da Polícia Civil apontam para uma guerra entre faccionados que, um a um, estão se matando.

Em entrevista ao MidiaNews, o delegado Eugênio Rudy Júnior, da Divisão Especializada de Homicídios e Proteção à Pessoa, explicou que houve uma cisão na organização criminosa mais poderosa do Estado, o Comando Vermelho, que atua no município.

“Havia uma facção criminosa aqui e ela se dividiu. A partir daí os dissidentes começaram entre eles a se matar, na disputa por espaço territorial”, afirmou o delegado, que é responsável pelos dez inquéritos que investigam as doze mortes.

Dos inquéritos, quatro deles já estão com as autorias identificadas. Segundo o delegado, no entanto, devido ao curto intervalo entre as mortes não foi possível efetuar as prisões.

“O curto espaço de tempo em que ocorreram as mortes tem prejudicado sobremaneira as investigações, que precisam ser maturadas para que cheguem concretamente aos autores”, afirmou.

“Algumas diligências precisam de tempo, uma vez que, por se tratar de crimes complexos, em sua maioria envolvendo organizações criminosas, demandam uma investigação qualificada. Já reforçamos nossa DHPP com mais investigadores visando elucidar esses crimes”, complementou.

Segundo a Polícia Civil, as investigações seguem em andamento para concluir os inquéritos dentro do prazo legal de 30 dias.

Um dos últimos homicídios registrado na cidade, e atribuído ao embate entre membros de facções, foi o de Leonardo Fabrício Pires dos Santos, um rapaz de 18 anos. Ele foi assassinado com pelo menos nove tiros na madrugada da última quarta-feira (03).

“O modo de execução é similar aos demais, havendo fortes indícios de que foram provocados pelo mesmo grupo criminoso”, destacou o delegado.

Dentre as vítimas estão 11 homens e uma mulher com idades entre 17 e 31 anos. O modus operandi é sempre similar: execuções por meio de armas de fogo em que a vítima é alvejada várias vezes até morrer.

O mais recente dos crimes cometidos na cidade aconteceu na última sexta-feira (5). E dessa vez, diferente dos demais casos, foi usada uma faca para cometer o crime. João Paulo Andrade Lara, de 31 anos, foi esfaqueado até a morte em um bar da cidade.

Amigos da vítima esfaquearam o agressor, que precisou ser encaminhado ao Hospital Regional de Sorriso, onde está internado em estado grave.

Segundo o delegado esse caso se difere dos demais e, como as investigações indicam, não tem relação com a “guerra entre facções” que feito tantas mortes.

Segundo o presidente da Câmara de Sorriso, Leandro Damiani do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileiro) a situação é preocupante, “são muitas mortes”, afirmou.

Quase entra para a estimativa

Para além dos casos que terminaram em morte estão aqueles que passaram perto dela. No dia 18 de julho, por exemplo, um jovem de 18 anos foi atingido por disparos na perna enquanto soltava pipa.

Ele confessou ser traficante e membro da facção Comando Vermelho. A Polícia acredita que a encomenda dessa morte também caia na conta da “guerra entre facções”.

Outras vítimas

No dia 19 de julho, Samuel Moreira da Silva Neto, de 25 anos, foi executado a tiros no bairro Morada do Bosque. Os cinco disparos atingiram a região da cabeça e do tórax.

Já no dia 21 de julho foram duas vítimas mortas de maneira cruel. Josivaldo dos Santos e W.S.R. foram apedrejados, esfaqueados e levaram um tiro na cabeça cada. Os corpos foram encontrados em uma região de mata.

O jovem de 20 anos, Matheus Barbosa da Silva, foi executado após três homens invadirem a casa dele, na madrugada do dia 23 de julho, no bairro Boa Esperança.

Uma testemunha ouviu a vítima sendo interrogada e ameaçada: Quem são eles lá de cima?”; “você sabe que estamos atrás deles e que vamos matar todos”; “você sabe de quem estamos falando”. Matheus foi atingido na cabeça, no tórax, no braço esquerdo e no pescoço.

A jovem Maria Eduarda Barbosa da Silva, de 21 anos, foi assassinada com vários tiros no rosto no dia 25 de julho. Os criminosos fugiram levando seu celular e a motocicleta.

Morto com pelo menos cinco disparos, Douglas da Silva Costa, de 24 anos, foi surpreendido na área de casa, no dia 27 de julho. Ele tentou fugir para dentro de casa e morreu na frente do pai.

O jovem Freddy Henrique Ferreira Testa, de 21 anos, também foi assassinado com diversos tiros na madrugada do dia 30 de julho. O praz foi encontrado sobre a cama com pelo menos 22 perfurações – entre entradas e saídas.

Também no dia 30 de julho, em outro ponto da cidade, outros dois homens foram motos a tiros, Welson Ribeiro Silva, de 27 anos, e Eli Anderson Monteiro de Souza Arantes, de 23. Patrão e funcionário foram perseguidos e mortos a tiros em frente a uma distribuidora.