Cuidar de quem cuida da gente

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Lidando diariamente com decisões de vida e morte, profissionais da saúde são mais propensos ao esgotamento emocional

Cuidar de quem está com dor, em situação desconfortável ou preocupado com a saúde não é uma tarefa fácil. Fazer isso diariamente, conciliando plantões com vida pessoal e sob a cobrança de nunca errar é ainda mais desafiador. Pela natureza do trabalho, profissionais da saúde acabam se tornando mais propensos ao desgaste emocional – e manter as emoções em dia se tornou um cuidado cotidiano.

“Durante a pandemia, ficou claro para mim que nós precisamos estar bem se queremos ajudar alguém. Para cuidarmos do outro, precisamos ter consciência do nosso estado mental e cuidarmos de nós mesmos”, diz Monize Marques de Almeida (32), médica com especialização em Geriatria e Cuidados Paliativos.

 

Monize Marques de Almeida, geriatra, especializada em Cuidados Paliativos e médica visitadora do Hospital Santa Rosa

 

Monize Marques de Almeida, geriatra, especializada em Cuidados Paliativos e médica visitadora do Hospital Santa Rosa

Como muitos médicos que enfrentaram a letalidade da Covid-19 diariamente, Monize foi impactada pelo volume de mortes, pela pressão e pelo isolamento da família nos dois anos em que foi residente da área de geriatria em São Paulo. “A ansiedade aumentou. Vivia um medo real de infectar meus familiares. Cheguei ao meu limite e busquei ajuda profissional na terapia para me fortalecer”, lembra ela.

No retorno a Cuiabá, em 2021, Monize voltou ao Hospital Santa Rosa, onde havia feito residência em Clínica Médica. Trabalhando como médica visitadora, encarou a Covid-19 novamente, na chamada “segunda onda”. “Já tinha engrenado na terapia, mas a ansiedade aumentou. Segui orientação da minha psicóloga, busquei tratamento psiquiátrico, persisti com a terapia e tive uma melhora de pelo menos 80% na minha qua

 

lidade de vida”, conta.

Mesmo encarando um grande nível de estresse, Monize percebeu que o cansaço estava diminuindo. Sentia-se mais disposta e focada em ter bons momentos, aproveitando mais o tempo em família, por exemplo. “Quando nossa autoconsciência aumenta, conseguimos deixar o trabalho no trabalho, e temos mais tempo para nos cuidarmos. Hoje, valorizo o que realmente é importante, e isso se reflete também no meu trabalho, principalmente com os pacientes em estado mais grave”, explica a médica.

Antes da pandemia, o Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino divulgou os resultados de um estudo que mostrou que um em cada seis profissionais de saúde tinha sinais de burnout (esgotamento emocional severo). O levantamento foi feito em todo o Brasil, entrevistando 715 pessoas (médicos, enfermeiros, técnicos e fisioterapeutas) de 36 hospitais públicos e privados. Essa proporção tende a ter aumentado durante e após a pandemia do novo coronavírus.

Tirar o jaleco e sentar na cadeira de paciente, como Monize fez, não é frequente entre os profissionais da saúde. Psicóloga experiente, Marielza Pereira afirma que o tema “saúde mental” ainda hoje é delicado mesmo entre médicos, enfermeiros e técnicos. “É uma população que lida diariamente com situações estressantes e com decisões de vida ou morte. Isso gera um desgaste emocional frequente, o que aumenta a propensão em adoecerem emocionalmente. E doente não cuida de doente”, argumenta.

Marielza Pereira, psicóloga e coordenadora de Psicologia do Hospital Santa Rosa

Ela sabe do que fala. Além de larga experiência em consultório clínico, Marielza coordena o setor de Psicologia do Hospital Santa Rosa, onde tem um papel preventivo e de acolhimento dos pacientes que passam por internação. “Nosso foco é acolher, realizar a escuta terapêutica e observar como a pessoa se sente naquele momento específico. Não realizamos atendimento psicoterapêutico. Damos a segurança emocional possível para que aquele período delicado possa ser o mais sereno possível”, esclarece ela.

Quando há necessidade, Marielza sugere aos pacientes a ajuda profissional de terapeutas e psiquiatras. Mas a prioridade é avaliar o estado físico e psicológico até que seja possível a alta hospitalar. “Sintomas emocionais podem manter a pessoa sob nossos cuidados por mais tempo, até que um equilíbrio maior possa ser alcançado”, relata.

Conscientização – Ao longo do mês de janeiro, várias empresas, instituições e órgãos públicos realizam ações de conscientização sobre doenças mentais. As iniciativas fazem parte do Janeiro Branco“, movimento da sociedade que busca disseminar o tema “saúde mental” no Brasil.

Contato com a Imprensa: Dialog Assessoria e Comunicação