Filha de Maggi relata perrengue com PF, “atrito” com pai e descoberta

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Aos 38 anos, Belisa Maggi hoje toca fazenda e braço social dos negócios da família

Aos 24 anos, Belisa Maggi viveu sua primeira experiência no campo entre novembro de 2008 e junho de 2009.

 

Recém-formada em direito, a herdeira do Grupo Amaggi, maior empresa brasileira de grãos e fibras com receita anual de US$ 7 bilhões (cerca de R$ 38,5 bilhões), buscava novos caminhos profissionais.

 

“Quando terminei a faculdade em Curitiba, vi que não era a minha praia. Sempre fui idealista e ia demorar para ter impacto real como advogada ou juíza”.

 

Com pressa para encontrar propósito, decidiu trabalhar com um casal de amigos em um plantio de ervas medicinais voltado à produção de óleos essenciais em Caldas Novas (GO).

A empreitada durou oito meses e acabou em caso de polícia, conta ela, aos risos.

 

A experiência consta no currículo da atual presidente da Fundação André e Lucia Maggi, gestora da Agropecuária Pirapora e membro do conselho de administração do AL5 Bank.

 

Está lá entre as qualificações profissionais da hoje executiva de 38 anos a assessoria para Tecnicus, na “condução de plantas medicinais – Pimenta Longa”.

 

Reprodução/Redes sociais

belisa blairo

Belisa e seu pai, o ex-governador de Mato Grosso, Blairo Maggi

Na época, a Embrapa anunciava o domínio da técnica de extração do safrol, substância encontrada nos galhos finos da planta usada na indústria farmacêutica e na perfumaria.

 

Só que o safrol também é matéria-prima do ecstasy, razão de figurar na lista de substâncias precursoras de entorpecentes e psicotrópicos da Anvisa.

 

“Eram cinco hectares de plantação”, relata. “Só soube depois que tinha esse componente químico para fabricar ecstasy”.

 

Belisa qualifica essa imersão no “projeto de inovação em agricultura” como uma aventura. “A Polícia Federal incinerou tudo. Não deu certo”.

 

O episódio acabou por convencer o pai, o ex-ministro da agricultura Blairo Maggi, que já ostentou o título de maior produtor individual de soja do mundo, de que a filha poderia ser testada na administração de uma das fazendas da família.

 

“Foi quando ele me chamou: ‘Vem para Mato Grosso. Vou te dar uma fazenda para tocar'”.

 

E lá se foi a filha do meio do também ex-governador e ex-senador transformar 200 hectares na Chapada dos Guimarães, até então destinados à criação de gado, em unidade produtora de grãos.

 

“Eu tinha uma noção, mas não dá para dizer que sabia como fazer”, admite. “Meu pai foi sábio. Criei uma força interna diante daquele desafio”.

 

Começava ali, diz Belisa, etapa importante do processo de autoconhecimento e de descoberta de vocação.

 

Ela havia estagiado em vara de família, trabalhado em clínica de estética e desistido de um curso de administração na London School.

 

“Estava bem perdida”, recorda-se. Com encorajamento paterno, tornou-se trainee na sede do grupo em Rondonópolis, onde nasceu. “Passei em todas as áreas, desde o comercial até o RH. Era uma coisa dinâmica.

 

“No início, os peões nem me ouviam direito. É um ambiente muito machista. Quando um homem falava, eles escutavam”.

 

Belisa, no entanto, mirava no coração do negócio familiar. “Agora, você quer pegar uma fazenda?”, indagou o pai. A resposta dele foi não. “Teve esse atrito e eu fui para Goiás”, resume a segunda de três filhos de Blairo.

 

Em perspectiva, ela diz entender a postura do pai diante do seu ímpeto juvenil. “Eu queria ter uma experiência própria. Ser filha do dono é bem complicado. Tem que fazer o dobro para mostrar valor”.

 

Depois da tentativa frustrada de cultivar pimenta longa no cerrado, em dois anos ela conseguiu provar que dava conta de gerir uma plantação de soja e algodão, carros-chefes dos negócios da família Maggi.

 

“No primeiro ano, abri 200 hectares de plantio. No ano seguinte, mais 300. Depois chegamos a 500 hectares de área plantada”, relata. “Era uma fazenda pequena, mas muito produtiva”.

 

O sucesso da primeira empreitada agrícola não esconde as agruras de uma menina travestida de fazendeira que precisava ganhar a confiança paterna e dos empregados.

 

“No início, os peões nem me ouviam direito. É um ambiente muito machista. Quando um homem falava, eles escutavam”.

 

A solução foi fazer do gerente seu porta-voz, artifício que funcionou até provar que era capaz. Contava com o know-how da empresa e supervisão de agrônomos. “E o meu pai sempre ficou de olho”.

 

Morou por dois anos na fazenda a 80 km da capital mato-grossense. “Éramos eu, meus cachorros e os funcionários. Foi bem bom, mas era estranho. Na fazenda, não me arrumava pra nada. Colocava bota e pronto”.

 

Um contraste com a vida de jovem herdeira. “Descia para a cidade e não era agradável. No campo, as relações são mais verdadeiras do que na sociedade”.

 

Quando passou a ficar mais tempo em Cuiabá, fazia trabalhos voluntários com crianças em lares provisórios.

 

O envolvimento em causas sociais a fez ser convidada para assumir em 2015 a fundação que leva o nome dos avós paternos, braço social do grupo com orçamento anual de 1% do lucro líquido do negócio.

 

“Na fundação, que já era bem estruturada, entendi que o social não se expressa só no assistencialismo”.

 

Com esse olhar mais estratégico para a filantropia, ela resolveu criar o Instituto Signativo, em 2016, para apoiar educadores para os desafios da educação do século 21.

 

Escolheu Sapezal (MT), município fundado pelo avô, como piloto para workshops em escolas públicas. “É a continuação do legado dele”.

 

É na região que Belisa e o marido, o administrador Caio, tocam uma fazenda de 2.000 hectares. “O RH é meu. O resto é com ele”, brinca ela. O casal se divide entre a propriedade e Curitiba, onde decidiu morar após o nascimento do filho há quatro anos.

 

Lucca é um dos 33 bisnetos de dona Lucia, 90, a matriarca da família. “Minha avó é exemplo de força. Sempre foi uma mulher que se posicionava em relação ao marido”, diz Belisa.

 

Em novembro de 1955, o casal passava por tempos difíceis após deixar o Rio Grande do Sul rumo ao Paraná.

 

Grávida do terceiro filho, Lucia foi firme em um diálogo que consta da biografia “Olhar da Fortaleza”. Estavam há 20 dias em São Miguel do Iguaçu, quando o marido, funcionário de uma serraria, comunicou que iam colocar as coisas em cima do caminhão e retornar para perto dos familiares.

 

Depois de chorar e rezar a noite inteira, Lucia relata ter se enchido de coragem para decretar: “André, daqui só vou pra frente. Voltar, jamais”.

 

O veredito levou o casal para Mato Grosso, onde nasceu um império. “Se ela não tivesse dito aquilo, talvez hoje não existisse a empresa”, afirma Belisa, sobre o conglomerado de 360 mil hectares de área plantada e uma produção total de 1,2 milhão de tonelada de grãos e fibras. “A Amaggi cresceu com os dois”.

 

Belisa é uma das 16 netas da “mulher mais rica do Brasil”. Segundo a lista da Fobes em 2022, Lucia Borges Maggi é dona de uma fortuna estimada em US$ 6,8 bilhões (cerca de R$ 38 bilhões).

 

Figurar no topo da lista de bilionárias é desconfortável para a matriarca, diz a neta. “Minha avó é uma pessoa muito simples”.

 

Viúva há 21 anos, dona Lucia mora em Rondonópolis. “Vive cercada das filhas, vai à missa, gosta de rezar o terço com outras mulheres. É uma senhorinha com uma força gigantesca. Tenho muito orgulho dela”.

 

Belisa também se orgulha do legado do pai e do avô. “Sou filha e neta de agricultores visionários que construíram uma nova maneira de olhar para o agronegócio”.

 

Ela louva a ousadia de experimentar sementes em solos desconhecidos, criar variedades para climas adversos, contribuições da família Maggi para transformar o Brasil em potência no setor.

 

“Parte do meu sonho é ver uma potência como o agro construindo outra, um Brasil potência educacional”, diz ela. “Pode parecer utopia, mas precisamos ter visão de longo prazo. Educação é o maior legado”.

 

Ela enxerga o agro como futuro para suprir a necessidade de alimentos e como indutor de desenvolvimento sustentável.

 

Em 2005, o Greenpeace concedeu a Blairo Maggi o título de “Motosserra de Ouro”. Nos últimos dois anos, o Grupo Amaggi recebeu nota A no ranking global do CDP Forests, como única companhia brasileira de soja a obter nota máxima em gestão de riscos ambientais.

 

“Também foi classificada como a melhor do mundo em medidas contra o desmatamento”, afirma Belisa. Segundo ela, o antiprêmio do passado foi importante para fazer a empresa olhar para sustentabilidade e se tornar referência no mundo. “Temos que ser exemplo”.

 

Belisa defende um mergulho no “agro de verdade”. “É preciso visitar uma fazenda para ver o quanto de tecnologia existe ali”.

 

Ela e outros 11 representantes da terceira geração dos Maggi começaram a ser preparados para a sucessão familiar. “Estamos nos qualificando, fazendo cursos e aproveitando que a segura geração ainda está aí”.

 

Eles acabaram de concluir o programa de desenvolvimento de acionistas e famílias empresárias na Fundação Dom Cabral.

 

Está em estudo a criação de um familly office. “Essa governança é muito importante quanto se pensa na sustentabilidade de uma empresa familiar”.

 

Antes disso, Belisa fez curso de liderança executiva em Harvard e especializações em neurociência e inteligência emocional. Empolga-se ao falar das oficinas com professores da rede pública e da recém-criada startup de inovação em educação e desenvolvimento humano, a Puppa.

 

“Quero deixar essa vida tendo inspirado pessoas, como meu avô fez, criando oportunidades para quem está a nossa volta e para o Brasil”.

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