LEVANTE DA CUIABANIA; Livro relembra histórica eleição de 2004 em Cuiabá

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Livro-reportagem será lançado no dia 6 de fevereiro (sábado), às 19 horas, na Livraria Janina do Pantanal Shopping

Da Redação Folhamax

O grande embate entre as forças políticas tradicionais e as emergentes na política mato-grossense, em especial a cuiabana. Uma ferrenha e renhida disputa eleitoral no primeiro e, sobretudo, segundo turno. Um certo “comitê da maldade”. Uma inacreditável vitória de um candidato que amargava 20% atrás do concorrente e que, a pouco mais de dez dias do pleito, fez surpreendente reviravolta. Os cuiabanos, movidos pelo sentimento da cuiabania, que deram a volta por cima e viraram o jogo.

Estes são algumas das inúmeras anotações que traz o livro “Um Levante da Cuiabania –Eleições 2004”, de autoria do jornalista João Batista da Silva Negrão, que será lançado no próximo dia 6 de fevereiro (sábado), a partir das 19 horas, na Livraria Janina, no Pantanal Shopping.

Em suas 196 páginas, a obra é um livro-reportagem sobre as eleições de 2004 em Cuiabá, capital de Mato Grosso, vencida de forma inacreditável pelo deputado Wilson Santos (PSDB), que saiu vitorioso no primeiro turno, mas em dez dias foi ultrapassado pelo adversário, o petista Alexandre Cesar, em 20 pontos percentuais de diferença.

“Em uma eleição que já estava praticamente perdida a derrota só não se consumou devido a uma surpreendente reviravolta, em que o vencedor, com apenas outros dez dias, virou o jogo espetacularmente. A razão disso: a exploração do sentimento da cuiabania, expressão que identifica a paixão do cuiabano com sua terra, sua gente e seus valores. Ao identificar nos adversários, quase ao final ‘do segundo tempo’, que políticos alienígenas e oportunistas queriam conquistar o poder da cidade com pouca ou sem nenhuma identificação com ela, os cuiabanos, movidos pelo sentimento da cuiabania, promoveram um verdadeiro levante”, pontua João Negrão.

Editado sob o selo Edições Mutirum o livro traz ainda uma inédita entrevista com o ex-governador Dante de Oliveira, falecido em 2006. Nela, Dante responde sobre, entre outros assuntos, o fato de a campanha de Wilson Santo tê-lo “escondido” para não prejudicar os ataques dos adversários. Fala também sobre os revezes de seu governo, das denúncias de envolvimento com o crime organizado e sobre os erros das alianças do PSDB em 2002.

As “orelhas” e contracapa do livro são assinadas por três dos principais analistas e cronistas da política mato-grossense, em especial cuiabana: Onofre Ribeiro, Eduardo Mahon e Alfredo da Mota Menezes.

“A eleição de 2004 em que o Wilson se candidatou à prefeitura de Cuiabá, foi uma utopia. Tinha um ambiente político muito agressivo em relação a ele, porque a chegada do governador Blairo Maggi ao poder dava uma cara nova à política de Mato Grosso, substituindo todo o establishment  anterior. E de repente, dentro de Cuiabá, que é o núcleo da cuiabania, aparece o Wilson com uma candidatura, meio avulsa, e utópica, tinha tudo para matar de vez a cuiabania ou para salvá-la de um afogamento”, escreve Onofre Ribeiro numa das “orelhas”.

“O conceito de cuiabania exposto no livro de Negrão remete-se a outro mais antigo proposto por José de Mesquita. Cuiabanidade – diria o mais importante intelectual mato-grossense da primeira metade do século XX. Trata-se do quê? A formação de uma tradição essencialmente cuiabana é resultado de uma romantização sobre a história e a geografia da capital. Distância, isolamento, abandono e abnegação compõem a semântica dessa cuiabania que, de tão decantada, passou a ser ‘filtro civilizatório’ na visão do poeta Silva Freire”, expõe Eduardo Mahon.

“Até hoje se discute como o Wilson Santos conseguiu vencer a eleição para prefeito de Cuiabá de 2004. Lideranças antigas e novas da política local e estadual queriam, além das derrotas de Dante e do PSDB em 2002, essa outra para empurrar esse partido e o grupo para o limbo político”, analisa Afredo da Mota Menezes em texto da contracapa.

“João Negrão, que participou de perto daquela eleição, esmiúça o assunto. Cerca aquele acontecimento com dados e números que dificilmente serão contestados. Com base em muitas entrevistas, sem desmerecer partidos e participantes, aumenta a credibilidade da pesquisa feita. Wilson Santos é o centro da análise. Ao redor dele o autor trás de volta momentos palpitantes da política local e estadual”, acrescenta Menezes.

Trechos de um dos capítulos:

Testemunha ocular de uma história

Este livro é uma reportagem sobre esses acontecimentos, com enfoque na campanha e eleição de Wilson Santos, os bastidores e as particularidades que a tornaram sui generis e a levaram a se instalar no pedestal da história política, cuiabana e mato-grossense. Reporto as ocorrências a partir do que pude testemunhar e dos depoimentos que colhi, o que, obviamente, são versões de dentro da ótica e do lado de quem os presenciou e sentiu. Embora tenha como entrevistados personalidades de todos os flancos da disputa, a verdade é que no decorrer dos embates eu estava de um lado e tomei partido, e não apenas profissionalmente. Esta condição, obviamente, me limitou de certa forma a ver prioritariamente este lado.

Faço tal ressalva porque, apesar do rigor ético que me impus para contar esta história, em verdade uma reportagem tem suas limitações. Além do que, se o jornalista é “a testemunha ocular da história”, por outro lado, em que pesem seus esforços, ele acaba sempre reportando uma parte da história e não toda a história. Soma-se a isto o fato de que, ao contrário de um projeto de engenharia, que segue um rigor matemático, uma pauta jornalística nem sempre será cumprida dentro de um critério único. Se apresentarmos a dez engenheiros um mesmo projeto arquitetônico e pedirmos que cada um construa um prédio, teremos dez edifícios praticamente idênticos. Se, no entanto, entregarmos a dez jornalistas uma pauta única, cada um deles apurará e redigirá dez reportagens bem diferentes. Faço tal comparação para asseverar que qualquer um, jornalista ou não, que se dispor a contar esta história, o fará à sua maneira, sob seus critérios de investigação e constatação, de acordo com sua consciência política e em comum com seus valores éticos e morais. Será, portanto, uma outra história ou, no máximo, a mesma história, mas com uma ótica diferente, uma visão particular.

O sentimento da cuiabania

Em todo caso, aqui está a história de uma eleição que, no que me propus analisar, mudou sensivelmente a correlação de forças dentro do Estado. Evidentemente que qualquer eleição municipal, sobretudo na capital, muda algo no quadro político em qualquer âmbito. Mas esta alçou novas lideranças estaduais e colocou em segundo plano algumas “raposas políticas”; escancarou comportamentos até então não condizentes com alguns personagens do cenário político estadual; mudou conceitos à esquerda e à direita; estabeleceu novos paradigmas; colocou em xeque instituições, algumas das quais até então insuspeitas; e revolveu sentimentos.

A começar por ter despertado com fervor um sentimento até então latente na campanha (e provavelmente nos dois anos anteriores) num dos segmentos mais importantes da sociedade local: o da cuiabania. A cuiabania, aqui não entendida apenas como a elite tradicional da capital mato-grossense, mas como sentimento generalizado – algo que, aliás, merece um estudo com mais profundidade. Este sentimento, que alguns preferem se referir mesmo como o da cuiabania, mas que poderia ser denominado como a cuiabanidade: um sentimento mais amplo, não restrito apenas às tradicionais famílias da elite cuiabana, mas que abarca também as famílias tradicionais da periferia e todos aqueles que adotaram Cuiabá e a amam de verdade. E foi ele determinante na eleição de Wilson Santos prefeito. Daí, o título que adoto: “Um levante da cuiabania”.