Mestre Cervejeira cuiabana desembarca em Porto Alegre para ser juíza da maior competição da América Latina

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COPA CEVEZAS

Da Redação – Pedro Coutinho BertoliniFoto: Arquivo Pessoal

Na data em que se comemora o Dia Internacional da Cerveja, 5 de agosto, a cuiabana Mestre Cervejeira pela Escola Superior de Cerveja, Especialista em Estilos pelo Instituto da Cerveja Brasil, e química pela UFMT, Mariana Maranho desembarcou hoje de Porto Alegre para ser jurada da etapa nacional da maior competição cervejeira da América Latina, a Copa Cervezas de América. Atualmente responsável pelo Controle de Qualidade e Desenvolvimento da Cervejaria Colombina – GO, Mariana já trabalhou em montagens de laboratórios no México, foi juíza em concursos nacionais e têm conquistado reconhecimento no mercado internacional.

Destaque feminino em um mercado ocupado em sua maioria por homens, contou que sofreu preconceito por ser mulher mesmo sendo reconhecida internacionalmente e dona de currículo preenchido com as devidas especializações na área. “No começo eu achava que era pelo simples fato de eu ser inexperiente, e não pelo fato de eu ser mulher. Até que recebi a resposta de um e-mail dizendo que uma determinada fábrica não contratava mulheres”.

Mariana Maranho está no mercado cervejeiro há 6 anos e trabalha com produção em alguns estados brasileiros e fora do país.  Atualmente, está na Cervejaria Colombina – GO, sendo responsável pelo Controle de Qualidade e Desenvolvimento de Novos Produtos.

A mestre cervejeira de 29 anos também é professora de Fermentação na Escola Superior de Cerveja e Malte para cursos de Tecnologia Cervejeira e Cervejeiros Caseiros e participa de forma ativa de concursos de cerveja.  Agora, compõe a equipe de jurados da etapa nacional, que ocorrerá desta sexta-feira até o dia 7 no 4Beer, na Av. Polônia, em Porto Alegre.

Ao lado da equipe, Mariana ficará responsável por analisar e julgar cerca de 130 estilos de em Porto Alegre, pelos 30 jurados liderados por Daiane Colla, juíza diretora da etapa brasileira. No total, são mais de 2 mil amostras recebidas pela Copa.

Parado forçadamente por conta da pandemia, o concurso está de volta e terá etapas nacionais na Argentina, no Brasil e no Chile, que definirão as melhores cervejas de cada país participante. A grande final da Copa acontecerá em outubro, na cidade de Valdivia, Região de Los Rios, no Chile.

Mestre Cervejeira

Mariana não sabia que sua vida iria tomar o rumo que tomou até fazer a disciplina de bioquímica industrial, no 6º semestre de química. Foi o seu primeiro curso de formação e, também, responsável por preparar o terreno em que sua carreira entraria pouco tempo depois.

Na matéria, ela aprendeu sobre bebidas fermentadas e destiladas, o que lhe despertou para um universo novo sob sua concepção: o mundo novo da cerveja. “Eu não apreciava cerveja até comprar a minha primeira, que foi uma APA (American Pale Ale) e conseguir tomar toda a garrafa! Lembro que foi um mundo completamente novo pra mim!”, contou.

Depois desse primeiro contato, Mariana foi buscar os espaços possíveis desse mundo novo, até que encontrou e se formou no Curso de Mestre Cervejeiro na Escola Superior de Cerveja e Malte, em Blumenau.

Ela que nunca gostou de pesquisa ou escritórios, priorizou buscar o primeiro emprego no ramo em alguma indústria, laboratório, ou fábrica.  “Saia “gritando” pra todos que queria estar numa fábrica”.

A tentativa inicial de começar em uma fábrica foi frustrada. Porém, ela foi contratada pela escola superior como coordenadora de laboratórios, e assim, “comecei minha jornada no mercado cervejeiro”.

No começo da trajetória, em Blumenau, conheceu um mexicano que se interessou pelo seu trabalho e lhe convidou para ir até Monterrey, em Nuevo León, para montar dois laboratórios de análises microbiológicas físico-química para cerveja, no México.

Mariana aproveitou a oportunidade e, com muita coragem na bagagem, foi sozinha até o outro país para reforçar a visibilidade em torno do seu nome, que estava sendo inserido no mercado.

“Se tratava de uma experiência internacional com cervejarias e culturas diferentes, estava muito próxima da fronteira dos EUA e que me trouxe grandes referências de cervejas e estilos como American IPAs muito frescas e tecnologias diferentes”, disse ela que, após dez meses no México, retornou para o Brasil já trabalhando como Mestre Cervejeira em Juazeiro, interior da Bahia.

Então, resolveu compartilhar partes de sua rotina dentro das fábricas por meio do seu Instagram. Como poucas mulheres do país dividem assuntos técnicos da cerveja nas redes sociais, Mariana conseguiu chamar atenção e se destacar no meio por meio de seus conteúdos.

Foi com essa visibilidade que a cervejaria Colombina, em Goinânia, conheceu e se interessou pelos trabalhos da cuiabana. Hoje, ela ocupa o cargo de gerente de qualidade e desenvolvimento de novos produtos da marca.

“Aqui é um marco na minha trajetória pois comecei a ser reconhecida após 5 anos de estrada. E por ser uma fábrica relativamente grande aqui consigo aprender tudo que sempre quis sobre cervejaria, equipamentos, inovações”.

Preconceito por ser mulher

Destaque feminino em um mercado ocupado em sua maioria por homens, Mariana contou que sofreu preconceito por ser mulher mesmo sendo reconhecida internacionalmente e dona de currículo preenchido com as devidas especializações na área.

No começo, acreditava que as atitudes de intolerância aconteciam por ela ser inexperiente, e não por ser mulher. “Até que recebi a resposta de um e-mail dizendo que uma determinada fábrica não contratava mulheres”.

Como se isso não bastasse, começou a notar anúncios de vagas de emprego com observações dando conta de que não contratavam mulheres. “Sim, isso existia muito! Fora as respostas do tipo: mas você é mulher, você está disposta a se mudar de cidade?! E não sei o que atrapalharia ser mulher em mudar de cidade!”, questionou.

Quando ela percebeu todo o contexto estrutural de preconceito que envolve o segmento cervejeiro, ela se posicionou contrária às ações intolerantes com contestações, discussões e brigas na tentativa de provar que “através do meu trabalho que eu era capaz. Só que quando você faz isso, é taxada de mulher difícil de lidar e problemática”.

Ao abrir mão da proximidade com a família, antigos amigos e relacionamentos na busca de se provar suficiente por meio do seu trabalho no mundo cervejeiro, Mariana foi afetada psicologicamente.

“Enfrentei depressão, ataques de pânico porque abri mão de muitas coisas para trabalhar no mercado cervejeiro, e não importa o que fazia ou tentava nunca era suficiente!”, lamentou.

No decorrer do tratamento, ela mudou sua postura com o passar do tempo para não se machucar. Sem pressa, optou por continuar estudando, finalizando cursos e se dedicando na área.

Atualmente, é juíza de cervejas certificada, master em estilos, recebe convites para diversos concursos, possui reconhecimento a nível internacional pelo seu trabalho e, ainda assim, ponderou que “o preconceito nunca deixou de existir, apenas fui me adaptando e me acostumando a ter que trabalhar mais pra provar que sou capaz!”

Blindada para evitar traumas, adaptada e embasada pelo vasto currículo, Mariana lamentou que os problemas intolerantes que enfrentou anos atrás ainda continuam. “Até hoje, se me posiciono, sou questionada. E pode parecer triste, mas vai demorar muito pra acabar esse preconceito”, lamentou.

Visão de mercado

Mariana comentou ainda sobre o crescimento e potencial que o mercado cervejeiro tem, principalmente no mercado nacional que tem buscado melhores tecnologias, prezando por produtos de qualidade e percebido crescimento no número de cervejarias e brews pubs. Além disso, o mercado também tem evoluído na profissionalização, melhorando pagamentos, condições de trabalho e buscando profissionais capacitados.

“Apenas precisamos nos comunicar melhor com nossos consumidores e nos tornar acessíveis pra disseminar de forma efetiva cultura cerveja”.

Por outro lado, a mestre cervejeira enfatizou que o número de mulheres ainda é menhor, mas que as envolvidas no mercado estão engajadas em mudar essa situação. “A gente vem tomando espaços que antes eram ocupados apenas por homens e isso tem sido lento mas pelo menos tem acontecido e sendo muito debatido no meio. As próximas gerações de meninas vão encontrar um mercado menos pior e lutamos pra isso todos os dias!”, finalizou.